MADRI — O Congresso da Espanha rejeitou nesta sexta-feira (02/10) um decreto do governo de coalizão do primeiro-ministro Pedro Sánchez para enfrentar a crise habitacional. O premiê, de esquerda, não tem maioria no Parlamento.
O pacote previa a proibição temporária de despejos, a renovação automática de contratos de aluguel e a restrição à compra de imóveis por empresas de investimento. Partidos de direita consideraram a intervenção excessiva e argumentaram que as medidas poderiam levar proprietários a retirar imóveis do mercado de aluguel, reduzindo a oferta.
Nos últimos dez anos, os aluguéis no país subiram cerca de 84%, segundo o maior portal imobiliário da Espanha. Em cidades como Madri e Barcelona, encontrar um apartamento ficou mais caro e difícil.
Cristina Hernanperez mora em uma região a 30 quilômetros de Madri. Ela afirma pagar cerca de 40% menos do que desembolsaria na capital, onde gostaria de viver, mas diz enfrentar dificuldades por depender de um transporte público que nem sempre funciona. A paulista mora na Espanha há 19 anos.
“Eu até tinha esperança de que algo possa melhorar. O problema é que o governo faz propostas, mas depois não consegue que elas sejam aprovadas. Então não adianta nada”, disse Cristina após a rejeição do decreto.
Protestos e pressão sobre os aluguéis
A crise é associada à falta de moradias disponíveis. Proprietários também direcionam imóveis para plataformas de aluguel turístico, que oferecem retorno econômico maior. Fundos imobiliários compram prédios inteiros em bairros de grandes cidades, o que pode pressionar os preços para cima.
A Porta de Sol, em Madri, foi o principal ponto dos protestos recentes. Centenas de pessoas acamparam no local durante vários dias para pressionar o governo por mudanças.
As manifestações ganharam força após Maricarmen Abascal, de 87 anos, ser despejada do apartamento onde morava havia sete décadas. O edifício havia sido comprado por um fundo de investimentos. Após um acordo obtido pela advogada da idosa, Maricarmen poderá voltar ao imóvel pagando praticamente o mesmo aluguel de antes.
Alexander Guedes Santos, paulista que vive em Madri há 30 anos, disse que a situação piorou na última década. “É impossível pagar um aluguel no centro de Madri, mais ainda com o avanço das plataformas de aluguel para turistas”, afirmou. Ele tem 45 anos.
Maria Cruz de Castro, brasileira de 56 anos, procura outro apartamento perto de Madri e enfrenta dificuldades com os preços e as exigências dos proprietários. “Hoje em dia, as pessoas praticamente têm que trabalhar para pagar o aluguel”, disse.




