O eleitorado feminino voltou a ser um dos principais campos de disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para as eleições de 2026. A pesquisa Genial/Quaest divulgada na segunda-feira (28/09) mostrou Lula com 40% das intenções de voto entre as mulheres no primeiro turno, ante 37% no levantamento anterior. Flávio oscilou de 32% para 29%, e a diferença entre os dois chegou a 11 pontos percentuais.
A socióloga Camila Galetti afirma que a escolha das eleitoras deve ser analisada pelas condições concretas das famílias. Renda, alimentação, custo de vida e economia doméstica aparecem entre os temas com potencial de influenciar o voto, especialmente porque as mulheres são maioria entre as pessoas que chefiam os lares brasileiros. Para a especialista, elas “não vão votar por uma ótica identitária”, mas em função das condições de sobrevivência da família.
Bolsonaro, Michelle e a disputa religiosa
A rejeição ao sobrenome Bolsonaro entre as mulheres mudou em relação a 2022. Na avaliação de Galetti, Jair Bolsonaro carregava uma rejeição específica ligada a declarações misóginas e à violência política de gênero. Flávio, por sua vez, teria uma imagem diferente e é menos associado à pauta armamentista do que o pai, segundo a cientista social Maria Carlotto.
A campanha também usa a atuação de Michelle Bolsonaro no PL Mulher para se aproximar das eleitoras, sobretudo das mulheres evangélicas. Carlotto atribui à ex-primeira-dama um papel na organização do partido nos estados e na mobilização desse público. Família, moralidade, religião e um projeto de país são apresentados como elementos da estratégia de apoio a Flávio.
Na campanha de Lula, a primeira-dama Janja passou a aparecer com mais frequência em eventos e discursos. Galetti avalia que Michelle e Janja atuam a partir de estruturas distintas: Michelle tem trajetória junto a mulheres evangélicas organizadas, enquanto Janja fala de uma posição institucional e para um público mais amplo. Carlotto afirma que Janja “não cumpra um papel”, embora tenha menor proximidade com as eleitoras do que Michelle.
Economia, medo e direitos
Carlotto também cita o endividamento e os serviços públicos como fatores relevantes. Na avaliação dela, as medidas adotadas pelo governo Lula para enfrentar o endividamento seriam insuficientes para resolver o problema de forma estrutural.
Galetti relaciona o medo a temas concretos do cotidiano, como segurança, preço dos alimentos e precarização do trabalho. Ela menciona que, em 2018, a extrema direita mobilizou assuntos como “kit gay”, “mamadeira de piroca” e “ideologia de gênero”, e avalia que esse recurso pode ganhar novos significados conforme o contexto econômico e social.
A violência contra a mulher, a autonomia do corpo e os direitos reprodutivos também integram a disputa até este domingo (04/10). Segundo Galetti, os candidatos demonstraram pouca consistência ao tratar da violência contra a mulher e não apresentaram planos de governo para enfrentá-la. O aborto, porém, não teria ocupado nesta eleição o mesmo espaço de disputas anteriores.




