MADRI — Dezenas de milhares de pessoas protestaram neste sábado (03/10) pelo direito à moradia em Madri e em outras cidades da Espanha. Os atos ocorreram após o Parlamento rejeitar, na sexta-feira (02/10), medidas apresentadas pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez.
Na capital, as autoridades estimaram a presença de 70 mil pessoas, enquanto o Sindicato dos Inquilinos calculou 500 mil manifestantes. Uma das porta-vozes da entidade, Valeria Racu, criticou a condução do governo e afirmou que os protestos representam uma nova força de mobilização popular.
Entre os participantes estava Adhara Freile, de 41 anos, jardineira que vive com o companheiro em um apartamento de um cômodo no bairro de Villaverde. Como o contrato de aluguel termina no próximo ano, ela teme ser obrigada a deixar o imóvel, situação já enfrentada por outros moradores do prédio.
O livreiro Marcos Sainz, de 26 anos, disse que antes dividia com amigos um apartamento de três quartos por € 900. Atualmente, segundo ele, um imóvel de dois cômodos custa cerca de € 1.000. Sainz afirmou que continuará nos protestos até que haja regulamentação do mercado.
Javier, de 31 anos, instalador de painéis fotovoltaicos, relatou morar em um apartamento de 90 metros quadrados com mais três pessoas. Segundo ele, gasta metade do salário para pagar um quarto pequeno. O manifestante defendeu estabilidade e condições para uma moradia digna.
Crise política e despejo
Os protestos haviam sido planejados antes da rejeição das propostas pelo Parlamento. A crise política se intensificou há cerca de dez dias, após o despejo de Maricarmen Abascal, madrilena de 87 anos que vivia havia sete décadas no imóvel. A imobiliária havia tentado elevar o aluguel em 275%.
Depois da pressão das ruas, a empresa renegociou o contrato. Maricarmen poderá retornar ao apartamento após deixar o hospital e pagará € 500 de aluguel.
As medidas derrotadas incluíam a suspensão, até 2030, dos despejos de pessoas vulneráveis, ações contra fundos abutres e a renovação automática dos contratos. A atual legislatura está prevista para terminar em 2027, mas Sánchez avalia se convocará eleições antecipadas.
A falta de moradias acessíveis está entre os principais problemas sociais da Espanha. Plataformas de aluguel turístico, como o Airbnb, e fundos de investimento são acusados de elevar os preços ao comprar imóveis e reduzir a oferta para moradores.



