SÃO PAULO — O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do chefe de inteligência da corporação, Leandro Almada, ocorreu após a elaboração de um relatório interno usado pelo ministro Alexandre de Moraes para pedir uma investigação contra André Mendonça. A decisão foi tomada nesta terça-feira (8), no contexto das apurações sobre o caso do Banco Master e do INSS.
Moraes apresentou o pedido na quinta-feira (3), citando suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso. Dois dias antes, na terça-feira (1º), Mendonça havia retirado o sigilo de outro relatório da PF que apontava Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro, dono do Master.
Decisão da Segunda Turma
Kassio Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam Mendonça, formando maioria na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal para referendar o afastamento. Gilmar Mendes pediu vista, o que lhe dá mais tempo para analisar o processo, mas a medida não altera o efeito prático da decisão.
Especialistas avaliaram que as investigações sobre Moraes devem continuar, mas consideraram que Mendonça ultrapassou suas competências ao determinar diretamente à PF a identificação do interlocutor de Vorcaro, sem levar o tema ao plenário do STF.
O episódio reabre comparações com mudanças promovidas por Jair Bolsonaro no comando da PF durante seu governo. Em 24 de abril de 2020, Bolsonaro exonerou o diretor-geral Maurício Valeixo. A decisão levou Sergio Moro, então ministro da Justiça, a pedir demissão. Moro disse que o presidente insistia na troca sem apresentar razões concretas e queria acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência.
Em depoimento, Valeixo afirmou que foi exonerado porque Bolsonaro queria um diretor-geral com maior afinidade. O então presidente tentou indicar Alexandre Ramagem, mas a nomeação foi barrada por Alexandre de Moraes. Rolando de Souza assumiu o posto e trocou o superintendente da PF no Rio de Janeiro em maio de 2020.
Mudanças no Rio e a reunião ministerial
Antes da saída de Valeixo, Bolsonaro havia anunciado, em agosto de 2019, a substituição do superintendente da PF no Rio. A corporação afirmou que a mudança já era discutida e não estava ligada ao desempenho do chefe regional. Naquele período, a unidade enfrentava instabilidade após a revelação do esquema das rachadinhas envolvendo Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro.
Em 22 de abril de 2020, durante uma reunião ministerial, Bolsonaro associou a troca do comando da PF no Rio à proteção de sua família. A gravação veio a público em maio daquele ano. O episódio motivou investigação sobre uma possível tentativa de interferência na autonomia da corporação.
A PF teve quatro diretores-gerais durante o governo Bolsonaro: Maurício Valeixo, Rolando de Souza, Paulo Maiurino e Márcio Nunes de Oliveira. Mendonça, que havia sido ministro da Justiça após a saída de Moro, foi indicado por Bolsonaro ao STF em 2021, para substituir Marco Aurélio de Mello.




