NOVA YORK — Cuba não considera mais a Venezuela um país aliado, afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores cubano, Carlos Fernández de Cossío. A declaração foi dada nesta sexta-feira (25/09), durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em entrevista realizada em Nova York.
Questionado sobre a relação entre Caracas e Havana, Cossío disse que a Venezuela continua sendo um país amigo, mas diferenciou essa condição do vínculo político mantido pelos dois governos nas últimas décadas. “Aliado é uma palavra forte demais”, afirmou.
A declaração ocorreu após a discussão sobre a aproximação entre a presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, e o governo de Donald Trump. Desde o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em janeiro, Delcy passou a negociar com a administração republicana temas econômicos, energéticos e políticos.
Durante a 81ª sessão da ONU, Delcy se reuniu com Trump em Nova York. Segundo a presidente interina, os governos discutiram o fortalecimento das relações bilaterais e uma agenda de cooperação em energia, mineração e segurança.
Relação histórica
A parceria entre Cuba e Venezuela ganhou dimensão estratégica após a chegada de Hugo Chávez à Presidência venezuelana, em 1999, e sua aproximação com Fidel Castro. O acordo entre os dois países envolvia o fornecimento de petróleo venezuelano e combustíveis a Cuba em troca de serviços cubanos, principalmente na saúde. Milhares de profissionais cubanos participaram de programas sociais e de saúde na Venezuela.
A relação continuou durante o governo de Maduro e se tornou relevante para Cuba diante da crise econômica venezuelana e das dificuldades de abastecimento de combustível provocadas por bloqueios e sanções dos Estados Unidos contra os dois países.
Antes da captura de Maduro, a Venezuela era o principal fornecedor de petróleo de Cuba. Em fevereiro, assessores de segurança e médicos cubanos deixaram a Venezuela em meio à pressão de Washington para reduzir os vínculos com Havana. O governo cubano afirma que 32 cidadãos cubanos morreram durante a invasão dos Estados Unidos a Caracas, na madrugada de 3 de janeiro, para sequestrar Maduro e Cilia.
Sanções contra Cuba
Na mesma entrevista, Cossío criticou as sanções econômicas dos Estados Unidos. Segundo ele, a pressão dificulta as reformas econômicas cubanas, incluindo medidas para ampliar a participação privada na economia.
“Se os Estados Unidos reduzirem a pressão, essas transformações em Cuba podem avançar muito e se tornar verdadeiramente irreversíveis, que é nosso objetivo e, em teoria, o que os Estados Unidos querem que aconteça”, afirmou.
O vice-chanceler também disse que parte dos cubanos espera uma mudança política em Washington para aliviar a pressão sobre a ilha, mas classificou essa expectativa como “wishful thinking”, ou esperança sem base concreta.



