ILHA DE LEWIS, ESCÓCIA — Em 16 de setembro de 1952, o barco pesqueiro Carella atravessou uma nuvem de aerossol com Yersinia pestis durante um teste secreto de guerra biológica do Reino Unido. A bordo estavam 18 pescadores de Fleetwood, no litoral de Lancashire, que voltavam da Islândia sem saber que eram observados como cobaias.
O experimento fazia parte da Operação Caldeirão, programa conduzido por Porton Down com participação de observadores canadenses e oficiais da Marinha dos Estados Unidos. Os testes ocorreram entre junho e setembro de 1952 na costa nordeste da Ilha de Lewis, nas Hébridas Exteriores.
Testes com agentes infecciosos
Uma estrutura instalada sobre um pontão flutuante abrigava gaiolas com centenas de coelhos e macacos. Bombas e dispositivos de pulverização espalhavam, a favor do vento, aerossóis de peste pneumônica e bubônica, brucelose e tularemia. Na primeira série, 3.492 cobaias foram expostas aos agentes e sacrificadas para análise.
O teste final usaria a bactéria associada às formas pneumônica e bubônica da peste. O vento havia adiado a atividade por uma semana, mas mudou na noite de 16 de setembro. A bordo do Ben Lomond, o capitão Philip Welby-Everard ordenou a liberação da cultura.
O Carella apareceu na rota da nuvem cerca de um minuto antes do início previsto. Sinais de alerta foram ignorados, e o comandante decidiu manter o experimento. Dezesseis minutos depois, o barco passou a cerca de três quilômetros do pontão, dentro do raio considerado mais letal pelos cientistas.
Welby-Everard minimizou o risco em seu primeiro relatório ao Almirantado. Cientistas de Porton Down recomendaram a desinfecção do barco, mas o comando militar temeu um escândalo e decidiu não avisar a tripulação nem as autoridades de saúde pública.
Vigilância e revelação
Um contratorpedeiro da Marinha Real acompanhou o Carella à distância por 21 dias, levando soros antipestosos e vacinas. A embarcação pesqueira chegou a Blackpool, onde os tripulantes circularam entre a população sem saber da exposição.
Ninguém adoeceu. A nuvem perdeu concentração mais rápido do que previam os modelos teóricos, reduzindo o risco para a tripulação e os moradores de Blackpool. Depois, registros ligados ao incidente foram destruídos.
As informações começaram a surgir na década de 1990, com a consulta a arquivos parcialmente desclassificados do Ministério da Defesa. Em 1994, Calum Macdonald levou o caso à Câmara dos Comuns e pediu investigação sobre a Operação Caldeirão, a Operação Hesperus e outros testes realizados na região.
Em setembro de 2005, 53 anos após o incidente, o caso foi divulgado publicamente em detalhes. Documentos do Ministério da Defesa haviam sido obtidos pelo pesquisador Brian Balmer, enquanto sobreviventes da tripulação e oficiais envolvidos eram localizados. Um marinheiro identificado como Bellerby relatou um episódio de queda de cabelo em tufos e levantou a possibilidade de outras cepas terem sido liberadas.




