RIO DE JANEIRO — A repercussão de um apoio nas redes sociais pode ser muito maior que seu efeito direto sobre o voto, avalia o cientista político e professor do Ibmec Brasília Leandro Gabiati. Para ele, a identificação de eleitores com artistas e influenciadores tende a reforçar preferências políticas anteriores, em vez de provocar migração entre grupos.
A participação de personalidades voltou a ganhar visibilidade antes das eleições desse ano. No último domingo (13), Malu Mader, Claudia Abreu e Tony Bellotto estiveram em uma manifestação em Copacabana, no Rio de Janeiro, em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os três declararam voto no presidente durante o ato.
No campo associado à direita, Gusttavo Lima, Nelson Piquet, Jojo Todynho, Regina Duarte e Latino se tornaram referências públicas. Jojo já se declarou uma “mulher preta de direita” e apoiou Alexandre Ramagem nas eleições municipais de 2024. Em 2025, recusou um convite do PL para concorrer a uma vaga de deputada federal em 2026.
Leonardo, Zezé Di Camargo, Chitãozinho e Amado Batista também declararam apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A presença desses nomes amplia o alcance da disputa para públicos que podem não acompanhar noticiário, debates ou propaganda eleitoral tradicional.
Alcance e identificação
Segundo Gabiati, a celebridade atua de maneira diferente do cabo eleitoral tradicional. Em vez de depender de relações pessoais e trabalho territorial, ela mobiliza identificação simbólica e pode alcançar milhões de pessoas ao mesmo tempo. Também pode associar ao candidato atributos ligados à própria imagem, como credibilidade, juventude, irreverência e popularidade.
O professor, porém, afirma que esse capital não se converte automaticamente em votos. “Gostar de um artista não significa necessariamente votar no candidato que ele apoia.” A conversão seria mais provável entre pessoas com baixo envolvimento político, que podem usar a personalidade como referência diante da falta de outros critérios.
O efeito mais imediato, segundo Gabiati, é “energizar a própria base, gerar engajamento, doações ou mobilização”. As redes sociais aumentaram a velocidade e a frequência dessas manifestações, permitindo que celebridades falem diretamente com seus seguidores várias vezes ao dia. A polarização também tornou os posicionamentos mais explícitos e ampliou o risco de rejeição entre parte do público.
Jojo Todynho ilustra essa mudança ao assumir posições políticas de forma mais direta e ser sondada pelo PL para uma candidatura em 2026. A aproximação com o campo conservador provocou reações entre grupos que antes se identificavam com sua imagem pública.
Quando a mobilização ganha estrutura
Milhares de comentários, compartilhamentos e críticas não comprovam, por si só, alteração equivalente no comportamento eleitoral. Para Gabiati, as plataformas podem concentrar reações em grupos mobilizados e criar a impressão de um impacto social mais amplo.
A repercussão passa a ter dimensão política maior quando ultrapassa as redes, alcança grupos sociais mais amplos e entra no debate da campanha. O mesmo vale para o apoio de uma celebridade: ele pode se transformar em movimento quando deixa de depender apenas da figura pública e passa a contar com atos coordenados, redes organizadas e captação de recursos.
A permanência é o principal critério. Enquanto a mobilização depender da presença contínua do artista, trata-se de capital pessoal emprestado à política. Quando passa a existir além da fama e se transforma em liderança, o fenômeno muda de natureza.




