Um estudo do Projeto Migrantes Desaparecidos, realizado com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), registrou 1.586 mortes de mulheres imigrantes em rotas migratórias rumo aos Estados Unidos nos últimos doze anos. A maioria das vítimas saiu da Venezuela. Colômbia e Equador aparecem como os outros principais países de origem.
O Projeto Monitor de Imigrantes reúne informações de guardas costeiras, médicos legistas, ONGs, pesquisas, entrevistas com imigrantes e reportagens. A plataforma afirma que os dados não incluem imigrantes deportados nem pessoas submetidas a trabalho análogo à escravidão. Também alerta para subnotificação: em alguns locais, os corpos não são encontrados, e sobreviventes podem temer relatar os casos.
Entre as rotas mais perigosas está o Tampão de Darién, região florestal do Panamá sem estradas que interrompe a ligação terrestre entre a América do Sul e a América do Norte. Além de frio, calor, altitude e rios de correnteza intensa, os trajetos são marcados pela atuação de grupos armados. O estudo registra casos de extorsão, estupro, sequestro e assassinato.
Relato de uma família venezuelana
Juanita, nome fictício usado para preservar a identidade da fonte, deixou a Venezuela com o marido e a filha de sete anos. A família passou pelo Equador e cruzou o Tampão de Darién em quatro dias. Segundo seu relato, os acampamentos tinham estrutura precária, e serviços básicos eram caros.
A filha contraiu uma infecção estomacal após consumir água de rio. Juanita também lesionou o joelho durante a travessia. A família encontrou cadáveres em um rio de forte correnteza e, em outros trechos, recebeu ajuda da Cruz Vermelha com remédios, alimentos e acomodação.
Em Puebla, no México, o grupo foi entregue ao serviço de imigração por narcotraficantes. Juanita relatou agressões físicas e verbais. Depois, em Matamoros, enfrentou dificuldades para obter trabalho, renda e documentação.
Recursos para proteção
De 2014 a 2026, o monitor registrou 85 mil mortes de imigrantes. Afogamentos foram a principal causa, com 48.468 casos. O ano de 2024 concentrou 9.202 mortes.
A especialista Amanda Harumy, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que os órgãos da Organização das Nações Unidas (ONU) voltados aos imigrantes perderam capacidade financeira. Para ela, a redução de recursos e o vazio de jurisdição favorecem organizações criminosas.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) informou que os cortes no financiamento humanitário reduziram sua capacidade de resposta. Segundo o órgão, em 2025 apenas cerca de 20% das necessidades financeiras no continente americano haviam sido cobertas, afetando programas de proteção, regularização e integração.
O ACNUR também afirmou que a responsabilidade primária pela segurança das pessoas em território nacional cabe aos Estados, com apoio da agência. Harumy avaliou ainda que a influência dos Estados Unidos na América Latina e o avanço de governos de direita não devem ampliar a agenda de direitos humanos na região.
Sobre o Brasil, a especialista afirmou que o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, se afastou de organismos multilaterais. Já o governo de Luiz Inácio Lula da Silva retomou o Pacto Global para a Migração Segura, da ONU, e se reaproximou de organismos internacionais. Para Harumy, uma eventual reeleição de Lula poderia ampliar a participação brasileira nessas instituições.



