NOVA YORK, EUA — António Guterres entra nos meses finais de seus dez anos como secretário-geral da ONU com avaliações divididas sobre sua atuação. O mandato termina em 31 de dezembro, após períodos marcados pela pandemia de Covid, pelas guerras na Ucrânia, em Gaza e no Irã, pela emergência climática e pelos governos de Donald Trump.
Guterres lidera sua última Assembleia-Geral, que reúne chefes de Estado em Nova York a partir da próxima terça-feira (22). A escolha de seu sucessor ainda é incerta e depende do consenso dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Há um esforço para que uma mulher seja eleita pela primeira vez, depois de nove homens no comando da organização.
Críticas e defesa
Os críticos afirmam que Guterres não exerceu firmeza suficiente na mediação de conflitos. Diplomatas dizem que ele deixou de lado esse papel em um período com o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
O secretário-geral não mantém diálogo com a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia e perdeu acesso a Israel após as ações em Gaza. O Ministério da Defesa israelense chegou a declará-lo persona non grata e proibiu sua entrada no país.
Guterres rebate as críticas ao citar a iniciativa de grãos no mar Negro, coordenada em 2022 para permitir o escoamento da produção agrícola da Ucrânia durante os ataques russos. Ele também viajou ao Chipre para tentar retomar o diálogo e o processo de paz e reunificação da ilha.
Para Richard Gowan, diretor de assuntos e instituições globais da Crisis Group, um possível legado de Guterres é a continuidade da ONU, apesar dos cortes na assistência humanitária e nas operações de manutenção de paz. A crise orçamentária reduziu a ajuda no Sudão do Sul, na Ucrânia e no Haiti. As quedas foram de 35% no Sudão do Sul no ano passado em relação a 2024, 30% na Ucrânia e 18% no Haiti.
Gowan também avalia que Guterres poderá ser lembrado por tentar colocar a inteligência artificial no centro do debate da organização. A brasileira Maria Luiza Viotti, que foi chefe de gabinete do secretário-geral e hoje é embaixadora em Washington, afirma que ele buscou mediação e negociação diplomática e priorizou a ação climática.
Durante o mandato, Guterres defendeu a ampliação do número de membros permanentes do Conselho de Segurança e criou o ONU80, iniciativa voltada à reorganização de áreas da instituição e à valorização do multilateralismo. O processo ainda está em construção.
O destino de Guterres após a ONU não foi definido. Pessoas próximas consideram provável que ele passe mais tempo com a família. Existe ainda a possibilidade de que seja convidado a permanecer por alguns meses caso a sucessão enfrente dificuldades.



