SÃO PAULO — Uma ficha policial atribuída a Dilma Rousseff foi considerada falsa após análise de especialistas do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em junho de 2009. O laudo apontou fabricação digital e indícios de manipulações tipográficas grosseiras.
O documento havia sido publicado em 5 de abril de 2009, na primeira página da Folha de S. Paulo e, na íntegra, na página A10. À época, Dilma era ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula e era apontada como favorita para disputar a sucessão presidencial de 2010 pelo PT.
A ficha foi apresentada como parte do arquivo histórico do DOPS e associava Dilma a um suposto plano para sequestrar Delfim Netto, ministro da fazenda da ditadura militar. A publicação também relacionava a ex-ministra a ações contra o Banespa e o Banco Mercantil, ao ataque ao 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna e ao roubo do cofre de Adhemar de Barros.
Contestação ao documento
Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), negou ter afirmado que Dilma conhecia o plano. “Dilma sequer teria como conhecer a ideia da ação, a menos que fosse informada por mim”, disse. Segundo ele, a informação transmitida ao Comando Nacional era sobre um levantamento feito pelo Regional de São Paulo, possivelmente relacionado ao sequestro e resgate de integrantes da organização.
Dilma enviou uma carta ao ombudsman do jornal e informou que havia solicitado o documento ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, responsável pela guarda dos papéis do DOPS. A instituição respondeu que não tinha a ficha em seu acervo. A ex-ministra também afirmou que os assaltos citados foram praticados por organizações nas quais não militava e em cidades onde não morava.
Carlos de Almeida Prado Bacellar, coordenador do Arquivo Público de São Paulo, declarou: “Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece”. A ficha também não foi localizada no Arquivo Nacional nem no projeto Memórias Reveladas.
O jornal depois admitiu que o documento não vinha do DOPS e atribuiu o episódio a um “erro de catalogação”. A ficha, porém, havia sido recebida por e-mail e já circulava na internet desde 2008. Pesquisas de jornalistas independentes indicaram que ela aparentemente saiu do site Ternuma, sigla de “Terrorismo Nunca Mais”.
A publicação ainda atribuía a Dilma assaltos a residências e instalações militares e conspiração para homicídio. Ela não foi indiciada nem processada por esses atos durante a ditadura, inclusive nos três anos em que ficou presa por “subversão”. Ao final, a Folha afirmou que a autenticidade do documento “não pode ser assegurada, mas também não pode ser descartada”.




