Udekwe Kennedy Obinna transformou a experiência de cinco meses preso na Líbia em uma campanha contra o tráfico humano. Fundador da organização nigeriana Migrants Lives Matter, ele atua em escolas, igrejas, mesquitas, mercados e redes sociais para alertar sobre falsas promessas de migração, trabalho e peregrinação.
Desempregado após concluir a universidade, Obinna tentou migrar para a Itália em 2016. Antes, havia passado três anos planejando a viagem e sofreu um golpe de um falso agente de vistos. Depois, pagou 150 mil nairas nigerianas, cerca de R$ 580, a intermediários que o levaram a Sabha, na Líbia.
No local, descobriu que ele e outras 20 pessoas haviam sido vendidos a uma organização criminosa. O grupo sofreu agressões e foi obrigado a pedir dinheiro às famílias. Obinna permaneceu três meses sob custódia, até que seus parentes reunissem 2 mil dinares líbios, equivalentes a R$ 1.600, para o resgate.
Em novembro de 2016, ele tentou seguir para a Europa por mar, partindo de Trípoli. O bote inflável, com 156 pessoas, teve problemas no motor, ficou à deriva e se rompeu. Apenas 87 passageiros sobreviveram, segundo o ativista.
Após retornar a Trípoli, Obinna trabalhou para juntar dinheiro e fez uma nova tentativa em abril de 2018. A embarcação foi interceptada pela Guarda Costeira da Líbia, em Zuwarah, e ele foi levado para uma unidade de detenção em Zliten. Ficou preso por mais dois meses, até aceitar o retorno voluntário oferecido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).
“Em 5 de junho de 2018, graças à OIM das Nações Unidas, eu desembarquei na Nigéria”, afirmou. A partir daí, passou a usar principalmente o Facebook para orientar possíveis migrantes e criou a Migrants Lives Matter.
Aliciamento e vulnerabilidade
Obinna afirma que as redes criminosas têm recrutadores, financiadores e estruturas voltadas a diferentes crimes. Nas redes sociais, os aliciadores exibem carros, casas e uma vida confortável para atrair jovens com promessas de prosperidade na Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul e na Ásia.
A organização também trabalha com meninas de 12 a 18 anos e conversa com meninos em campos de futebol sobre falsas oportunidades esportivas. Em instituições religiosas, os alertas envolvem promessas de financiamento para peregrinações a Meca, Jerusalém e outros destinos. Segundo o ativista, algumas vítimas acabam submetidas à servidão doméstica, ao trabalho forçado, à exploração sexual ou ao tráfico de órgãos.
O relatório global sobre tráfico de pessoas publicado em 2024 pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) aponta que crianças são 61% das vítimas na África Subsaariana. Meninas representam 42% do total, e meninos, 19%. Entre os adultos, 29% são mulheres e 10%, homens. O trabalho forçado corresponde a 65% dos casos identificados, enquanto a exploração sexual representa 21%.
Na região, o número de vítimas identificadas cresceu 98% entre 2019 e 2022, considerando 20 países que forneceram dados em todo o período. Na Nigéria, foram registradas 1.087 vítimas em 2020, 1.470 em 2021 e 2.883 em 2022. A Agência Nacional para a Proibição do Tráfico de Pessoas da Nigéria (NAPTIP) informou que mais de 7 mil pessoas foram resgatadas entre 2022 e 2024. Em 2023, mulheres e meninas correspondiam a 77,6% das 2.112 vítimas resgatadas.
Redes internacionais
A Migrants Lives Matter se associou à Network of People with Migration Experience (NePMEX), rede que reúne organizações fundadas por sobreviventes e tem patrocínio da Alemanha. O grupo atua especialmente contra crimes que envolvem crianças e adolescentes.
Obinna também relaciona o aliciamento à insegurança e aos deslocamentos no Sahel africano. Ele cita a atuação do Boko Haram na Nigéria e afirma que a instabilidade dificulta o acesso ao emprego e aumenta a vulnerabilidade à migração irregular.
O ativista relata receber ameaças de morte e diz que enfrenta limitações para ampliar o trabalho. “Cada pessoa que consigo resgatar é uma vitória”, declarou.
No Brasil, entre 2025 e junho de 2026, o Ministério Público Federal denunciou 79 pessoas em casos com 299 vítimas identificadas. Outras 137 pessoas foram denunciadas por contrabando de migrantes. O relatório nacional de 2025 apontou ainda o recrutamento de brasileiros para fraudes financeiras no Sudeste Asiático, na América do Sul e na África, além de países em guerra.
O Camboja concentrou 52% dos casos de brasileiros traficados, seguido por Israel, Itália, Bélgica e Albânia. A exploração sexual respondeu por 43% dos casos e superou o trabalho escravo como principal finalidade identificada.




