O relatório de inteligência da Polícia Federal usado por Alexandre de Moraes para apontar “fortes indícios” de irregularidades na atuação de André Mendonça é classificado como documento de trabalho, de difusão restrita e sem valor probatório. O material não tem assinatura e reúne acusações, hipóteses e relatos, alguns acompanhados de ressalvas e de baixo grau de confiança.
Moraes encaminhou o documento ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, na última quinta-feira. A decisão ocorreu após a divulgação, dois dias antes, de mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e Moraes. As mensagens foram tornadas públicas por decisão de Mendonça.
Hipóteses sobre Alcolumbre e prazos
Uma das análises considera a possibilidade de uma investigação sobre Antonio Rueda, presidente do União Brasil, ser usada para atingir Davi Alcolumbre, também do partido. O relatório recupera os atritos entre Alcolumbre e Mendonça desde 2021, quando o senador presidia a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e demorou mais de quatro meses para marcar a sabatina de Mendonça, indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro.
O documento relaciona a hipótese à influência de Alcolumbre sobre futuras indicações ao Supremo, mas também apresenta explicações alternativas. A possibilidade de uma convergência ideológica sem coordenação estratégica recebe confiança baixa e é considerada difícil de afastar.
O relatório também compara prazos de decisões sobre pedidos da PF envolvendo políticos. Uma medida relativa a Jaques Wagner levou nove dias; outra, relacionada a Ciro Nogueira, 29 dias; e uma envolvendo o ex-governador do Rio Cláudio Castro, 75 dias. O documento aponta diferença expressiva, mas afirma que a amostra é pequena, seletiva e não controlada. Complexidade das medidas, recesso e tempo de vista à Procuradoria-Geral da República são citados como possíveis fatores.
Delações e relação com autoridades
O material questiona a participação de Mendonça em tratativas de colaboração premiada ligadas às operações Sem Desconto, sobre fraudes no INSS, e Compliance Zero, sobre o Banco Master. Segundo os relatos reunidos, o ministro teria perguntado sobre o andamento das negociações e os elementos apresentados por possíveis colaboradores. O relatório avalia que isso poderia avançar sobre atribuições das autoridades responsáveis pelos acordos.
O documento também menciona uma audiência de Mendonça com um advogado de investigado interessado em colaborar, mas ressalva que a reunião, por si só, não é proibida.
Relatos atribuídos ao ministro indicam desconfiança em relação a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. Mendonça teria questionado a proximidade de Rodrigues com o presidente da República e cogitado afastá-lo. Sobre Gonet, teria mencionado proximidade com Gilmar Mendes e considerado convocá-lo como testemunha em processos derivados das operações. O relatório ressalva que essas informações dependem integralmente de relatos não formalizados.
Supervisão de investigações
Outra parte do material critica a forma como Mendonça passou a supervisionar investigações sobre o INSS e o Banco Master. Entre os pontos citados estão a exigência de comunicação prévia ao gabinete sobre mudanças nas equipes, o acesso direto ao material bruto das operações e interferências no fluxo interno de análise da Polícia Federal.
O relatório afirma que o ministro estaria exercendo “poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial”.
O documento separa as informações em três categorias: documentadas, baseadas em registros; reportadas, obtidas por relatos de servidores; e avaliadas, formadas por juízos do analista. Também atribui graus de confiança às conclusões. A hipótese de direcionamento de investigações tem confiança baixa, enquanto as manifestações atribuídas a Mendonça sobre integrantes da PF e da PGR dependem de relatos que não foram reduzidos a termo.
Depois que o relatório veio a público, Mendonça enviou a aliados e líderes religiosos um vídeo de agradecimento pelas mensagens de apoio, orações e carinho recebidas nos últimos dias. A gravação circulou nesta sexta-feira e foi compartilhada por políticos de direita.




