A capacidade de ouvir e de lidar com as próprias emoções está no centro do trabalho do psiquiatra e coach francês Éric Albert, que já atuou com dirigentes de cerca de dois terços das empresas que integram o índice CAC 40, formado pelas maiores companhias listadas na Bolsa de Paris.
Na avaliação de Albert, conhecimento técnico e desempenho acadêmico não garantem a chegada ao topo nem a capacidade de comandar equipes. Executivos precisam controlar impulsos, administrar a ansiedade, adaptar a conduta a situações complexas e convencer pessoas em torno de decisões.
A tese é associada ao teste do marshmallow, experiência psicológica voltada à capacidade de adiar recompensas imediatas. Para o psiquiatra, essa habilidade pode ser mais relevante para a liderança do que diplomas obtidos na École Polytechnique ou na antiga École Nationale d'Administration (ENA).
Albert também aponta a arrogância como um risco para quem ocupa posições de poder. Segundo ele, alguns dirigentes passam a acreditar que não precisam de ajuda por serem inteligentes ou influentes. Intermediários tentaram organizar encontros entre o coach e Emmanuel Macron, mas o presidente francês não aceitou.
Seu trabalho inclui oferecer um ambiente confidencial para que executivos discutam dúvidas, medos, conflitos internos e decisões estratégicas. Nesse papel, ele pode ter conhecimento antecipado de processos de sucessão, fusões e mudanças de gestão.
O psiquiatra diferencia a competência de um especialista da capacidade de liderar grupos numerosos. Ele cita a necessidade de persuadir, tranquilizar, ouvir e formar consenso, além de tomar decisões. Como exemplo, reconhece a capacidade estratégica de Carlos Tavares, ex-dirigente da Stellantis, mas avalia que seu comportamento se apoiava demais em pressão e cobrança.
Albert também defende que dirigentes tenham ao redor alguém disposto a contrariá-los. Éric Lombard, ex-ministro da Economia da França, afirma que executivos são frequentemente tratados como "deuses vivos" e precisam ouvir verdades incômodas.
Nas empresas familiares, o coach atua ainda em processos de sucessão. Na Sodexo, teria estimulado os herdeiros a definir coletivamente o método de escolha do sucessor. O processo resultou na escolha consensual de Sophie Bellon.
Para Albert, o desafio das grandes organizações é fazer com que profissionais talentosos atuem juntos. A proposta é fortalecer a inteligência coletiva nos comitês executivos, reduzindo disputas de ego e priorizando o interesse comum.



