Os Estados Unidos interferiram em eleições brasileiras em 1955 e 1962, segundo relatórios oficiais da diplomacia americana e depoimentos de ex-agentes da CIA. Nas duas ocasiões, as tentativas de influenciar o resultado fracassaram.
O levantamento é do cientista político Dov H. Levin, professor de política e administração pública na Universidade de Hong Kong. Publicado no livro “Meddling in the Ballot Box: The Causes and Effects of Partisan Electoral Interventions”, o estudo reúne ações dos EUA, da Rússia e da antiga União Soviética em eleições presidenciais ou parlamentares realizadas de 1946 a 2014.
A base registra 187 intervenções em eleições nacionais para presidente ou primeiro-ministro. Levin estima que ocorreram cerca de 1.400 eleições desse tipo no período, o que equivale a 1 em cada 8 processos eleitorais globais afetados por alguma ação das duas potências.
No Brasil, a intervenção de 1955 teve como alvo a candidatura de Juscelino Kubitschek, visto pelos americanos como simpático aos soviéticos. A pedido do adversário Juarez Távora, os EUA concederam um empréstimo de US$ 75 milhões para estabilizar a economia antes da votação. Kubitschek, porém, foi eleito.
Em 1962, a preocupação americana era João Goulart e o avanço do que Washington identificava como tendências de esquerda no país. De acordo com Levin, a CIA ajudou grupos e políticos contrários a Goulart com cerca de US$ 8 milhões em financiamento de campanhas. A ação também não atingiu o objetivo.
“Nesses dois casos, sabemos com segurança que as intervenções aconteceram”, afirma Levin, que diz haver fontes confiáveis para comprovar os episódios.
Para 2026, o pesquisador vê possíveis sinais de interferência estrangeira, mas afirma que ainda não há elementos para determinar a intenção das ações americanas. Ele cita a guerra tarifária e a classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA. Essas medidas poderiam ser enquadradas como interferência caso buscassem alterar o resultado eleitoral.
Levin afirma que tarifas usadas para favorecer Flávio Bolsonaro (PL) ou prejudicar a reeleição de Lula (PT) se encaixariam em métodos clássicos de intervenção, mas ressalta que Trump também apresentou a ameaça tarifária por razões sem relação com eleições.
O pesquisador estima que o efeito médio dessas ações sobre o resultado eleitoral é de 3 pontos percentuais. Em disputas apertadas, uma intervenção poderia fazer diferença, mas não garantiria a derrota de Lula. Para Levin, ações abertas ainda podem provocar reação nacionalista e produzir efeito contrário ao pretendido.



