SÃO PAULO — A esquerda é o grupo político mais associado ao caso Banco Master pelo eleitorado, embora a maior parte das relações de Daniel Vorcaro envolva nomes do centrão e da direita, incluindo Flávio Bolsonaro. É o que mostrou pesquisa Datafolha publicada em 18 de setembro.
Para analistas políticos, a percepção pode ser explicada pela divulgação fragmentada das informações, pelo histórico de denúncias de corrupção em governos do PT, pela dispersão da direita e pelo efeito de escândalos sobre quem ocupa a Presidência. Também pesam a proximidade do governo Lula com Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal colocado no centro do caso, e a falta de clareza na apresentação dos fatos.
O cientista político Jorge Chaloub, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que, em um caso complexo, muitos leitores têm contato apenas com manchetes, trechos ou recortes compartilhados em redes sociais. Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, avalia que as denúncias surgiram de forma espaçada ao longo do ano, o que dificultou a formação de uma visão geral.
Números da percepção política
O levantamento mostra que 34 % da população brasileira considera que a maioria dos políticos envolvidos é de esquerda. Outros 27% apontam a direita, enquanto 10% identificam o centro. Para 13%, todos os campos estão envolvidos.
A divisão acompanha a preferência eleitoral. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 58% associam o caso majoritariamente à esquerda, ante 9% que apontam a direita. Entre os eleitores de Lula, 48% veem predominância da direita, contra 17% que indicam a esquerda.
Fernando Schüler, professor do Insper, diz que as revelações envolvendo o PT da Bahia ajudam a explicar a associação com a esquerda. Ele considera que a investigação sobre a ligação de Flávio Bolsonaro com o filme “Dark Horse”, que recebeu ao menos R$ 65 milhões de Vorcaro, tem peso menor por ainda estar em andamento.
No centrão, Ciro Nogueira, senador pelo PP-PI, era próximo de Vorcaro e foi alvo de uma operação da Polícia Federal. A corporação suspeita que ele tenha recebido uma mesada do banco para atuar em favor da instituição no Congresso. Nogueira nega e afirmou que a ação tentou manchar sua honra.
Na esquerda, Jaques Wagner, do PT da Bahia, deixou a liderança do governo Lula no Senado depois de ser alvo de uma operação motivada por suspeitas de vantagens indevidas do Master. Ele nega as acusações.
Governo, Supremo e disputa política
Lula também foi cobrado pela oposição por ter recebido Vorcaro no Palácio do Planalto, fora da agenda, em dezembro de 2024. O ex-banqueiro foi levado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que trabalhava como consultor do Master.
Para os analistas, a presença do governo federal no debate contribui para a associação do caso com a esquerda. Bruno Bolognesi, da Universidade Federal do Paraná, afirma que o ocupante da Presidência tende a concentrar a responsabilidade por problemas políticos e administrativos.
A proximidade entre o governo federal e Alexandre de Moraes é outro fator citado. O ministro aparece como principal figura à frente do inquérito que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe em 2022. Moraes mantinha conversas suspeitas com Vorcaro e editou o contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado entre o escritório de advocacia de sua mulher e o ex-banqueiro.
Marcus André Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, afirma que Moraes e Dias Toffoli são associados ao PT. Ele também cita a intermediação, por Moraes, de um encontro entre Lula e o presidente do Senado.
Melo avalia ainda que o escândalo do INSS pode reforçar a percepção de que o governo Lula está ligado a irregularidades. Segundo ele, o caso Master desloca a atenção na agenda pública.
A campanha de Lula e a militância petista demoraram a consolidar uma reação depois das revelações sobre a proximidade entre Moraes e Vorcaro. Celso Rocha de Barros atribui a demora à tentativa de Lula de preservar alianças. Schüler afirma que a campanha buscou mudar o foco com ações relacionadas ao Bolsa Família, à proibição das bets e à circulação de uma notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida.
A pesquisa Quaest de 14 de setembro apontou a corrupção como o segundo tema mais importante para o eleitorado, atrás apenas da violência.



