A Amazônia pode enfrentar novos meses de pressão sobre a água e as temperaturas com a intensificação do atual episódio de El Niño. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima probabilidade próxima de 100% de o fenômeno persistir até fevereiro de 2027.
O alerta ocorre após impactos registrados no bioma durante o episódio anterior. Levantamento do MapBiomas mostra que, entre setembro e novembro de 2024, 2.172 das 5.673 localidades habitadas analisadas na Amazônia — 38% — tiveram alta exposição aos efeitos da seca. A avaliação incluiu cidades, povoados, áreas rurais, territórios indígenas e quilombolas e assentamentos.
No período, a superfície de água na Amazônia ficou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica, calculada para 1985 a 2025. As chuvas ficaram 27% abaixo do padrão histórico, enquanto a temperatura máxima média superou em 2,6°C o nível normalmente registrado entre setembro e novembro.
A redução da água afeta especialmente as populações próximas aos rios. Bruno Ferreira, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e integrante da equipe do MapBiomas, afirmou que menos chuva combinada com temperaturas elevadas aumenta a perda de água do solo e o estresse hídrico da vegetação. A queda do nível dos rios também prejudica transporte, acesso à água e pesca.
Luciana Rizzo, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do MapBiomas Atmosfera, disse que “diversos modelos climáticos preveem chuva abaixo da média para o bioma Amazônia no trimestre de setembro a novembro de 2026, com temperaturas até 1 °C acima do normal”.
Riscos climáticos e perda de vegetação
A OMM informou que o El Niño atual está entre os quatro episódios mais fortes desde 1950 e pode atingir intensidade excepcional. A organização prevê riscos de secas, chuvas intensas e ondas de calor em diferentes regiões do planeta até o início de 2027.
A vulnerabilidade da Amazônia também aumentou com a redução da cobertura vegetal. Segundo o MapBiomas, o bioma perdeu 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, queda de 14% em relação à área existente no início da série histórica. A floresta recuou de 381,4 milhões para 328,1 milhões de hectares.
O Ibama anunciou que vai recomendar a inclusão dos riscos associados ao El Niño em processos de licenciamento de hidrelétricas, portos e linhas de transmissão. A medida deverá considerar possíveis alterações na disponibilidade de água e a ocorrência de eventos extremos.




