A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alertou para os riscos do uso sem acompanhamento médico de medicamentos à base de GLP-1 por crianças e adolescentes. As chamadas canetas emagrecedoras podem reduzir o apetite e, durante a fase de crescimento, limitar a ingestão de proteínas, vitaminas e sais minerais.
A preocupação ganhou visibilidade após a publicação de um vídeo em que uma mãe aplica tirzepatida no braço da filha de 17 anos. Na legenda, ela afirma estar aplicando Mounjaro na filha autista. Também há conteúdos de outras mães sobre o tratamento dos filhos com medicamentos desse tipo.
Para Crésio Alves, presidente do departamento científico de endocrinologia da SBP, os efeitos adversos podem ser mais graves na faixa etária pediátrica porque o organismo ainda está em desenvolvimento. “Como esses medicamentos reduzem muito o apetite, podem levar à diminuição da ingestão desses nutrientes e, consequentemente, limitar ou prejudicar o estirão de crescimento”, afirmou.
O uso inadequado também pode funcionar como gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia nervosa. Segundo Alves, o principal risco está na automedicação e na compra pela internet, por vias clandestinas, de produtos manipulados ou importados ilegalmente.
Tratamento e obesidade
O especialista defende acompanhamento com diferentes profissionais de saúde, incluindo orientação sobre atividade física e alimentação. A utilização sem supervisão pode deixar o paciente sem orientação sobre os exercícios e a dieta necessários para preservar a massa muscular.
Dados do Ministério da Saúde mostram que a prevalência de obesidade entre adolescentes e jovens de 10 a 19 anos subiu de 12% para 14,1% entre 2020 e 2025. Entre crianças de 2 a 9 anos, passou de 12,3% para 12,5% no mesmo período.
A semaglutida é liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde 2023, para adolescentes a partir de 12 anos com necessidade de controle de peso. A agência orienta que o medicamento seja usado como complemento de alimentação regulada e atividade física.
Em abril deste ano, a Anvisa também autorizou a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2 em pacientes pediátricos a partir dos 10 anos. O Ministério da Saúde informou ainda que pediu prioridade à Anvisa para o registro de genéricos à base de semaglutida e liraglutida.
Erika Paniago, delegada da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), recomenda atenção a restrições extremas, obsessão por calorias, checagem corporal compulsiva, comentários autocríticos e comparação social constante.




