NOVA YORK — A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta sexta-feira uma resolução para substituir gradualmente a projeção de Mercator por mapas que representem com mais precisão o tamanho dos continentes. A proposta foi apresentada pelo Togo e recebeu apoio de 164 países. Apenas os Estados Unidos votaram contra.
A decisão não altera a área real do Brasil, mas muda sua representação visual. Criado em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator para auxiliar a navegação, o mapa amplia regiões próximas aos polos e reduz visualmente áreas equatoriais. Com isso, Europa e América do Norte parecem maiores, enquanto África e América do Sul aparecem menores.
A distorção é especialmente evidente na comparação entre a Groenlândia e a África. Embora pareçam ter dimensões semelhantes no mapa tradicional, o continente africano é 14 vezes maior que a ilha ártica. O Brasil, sozinho, é quatro vezes maior que a Groenlândia.
Projeção alternativa
A campanha liderada pelo Togo defende a adoção do Equal Earth, desenvolvido em 2018 por uma equipe internacional de cartógrafos. A projeção também é usada na proposta do IBGE que coloca o Brasil no centro do mapa e inverte as posições globais de norte e sul.
O ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, afirmou que os mapas usados em materiais didáticos, meios de comunicação, plataformas digitais e documentos oficiais influenciam a percepção sobre o tamanho dos continentes. A diplomacia francesa anunciou, horas antes da votação, que deixaria de usar mapas-múndi baseados na projeção de Mercator.
Os Estados Unidos rejeitaram a resolução e disseram que ela “não pode ser dissociada do projeto ideológico muito maior e mais radical do qual faz parte”. A Ucrânia também não apoiou o texto em sua forma atual. A representação do país afirmou que os modelos cartográficos apresentados distorcem partes do território ucraniano temporariamente ocupadas pela Rússia.
Historiadores e geógrafos criticam há anos a projeção de Mercator por associá-la a estereótipos ocidentais. Ativistas usam a expressão colonialismo cartográfico para descrever o efeito de reduzir visualmente o Sul Global e ampliar países do Hemisfério Norte.
Em 1973, o historiador Arno Peters apresentou uma alternativa baseada na projeção de Gall-Peters. Outra campanha, chamada #CorrectTheMap, reúne mais de 11 mil assinaturas. A União Africana apoiou a iniciativa em agosto de 2025 e pediu ao Togo que conduzisse sua adoção.
Próximos passos
As resoluções da ONU não têm cumprimento obrigatório, mas podem estimular mudanças em currículos escolares e nas tecnologias usadas no dia a dia. O governo togolês planeja realizar um evento na capital do país com a Unesco, a União Africana e empresas de tecnologia como o Google Maps durante o primeiro trimestre de 2027 para definir a implementação.
A resolução ocorre após outras iniciativas apoiadas por países africanos na ONU. Em março, uma proposta patrocinada por Gana para classificar o tráfico de escravizados como o “mais grave crime contra a Humanidade” foi aprovada com 123 votos a favor, três contra e 52 abstenções.



