ACRE — Um estudo publicado pela revista Nature estima que os aquiry, antiga civilização do sudoeste da Amazônia, chegaram a três milhões de habitantes e construíram 30 mil grandes estruturas de terra compactada, os chamados geoglifos, há cerca de 2 mil anos.
A pesquisa integra uma série de trabalhos que revisam as estimativas sobre a população pré-colombiana da região e identificam maior complexidade na agricultura, na arquitetura e na organização dos assentamentos.
Laser revela estruturas sob a floresta
O avanço está ligado ao uso do LiDAR, tecnologia que emprega pulsos de laser para mapear o relevo e atravessar a copa das árvores. Com a técnica, pesquisadores conseguem localizar assentamentos abandonados e estruturas escondidas pela mata.
Liderado pelo finlandês Martti Pärssinen, com participação do cientista brasileiro Alceu Ranzi, o estudo sobre os aquiry foi o trabalho com laser que encontrou mais estruturas até agora. Ranzi é pioneiro no mapeamento de geoglifos.
O projeto Amazônia Revelada, coordenado pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP), também usa LiDAR em parceria com povos indígenas amazônicos. A iniciativa identificou sítios de ocupação indígena pré-colombiana, uma vila colonial portuguesa na fronteira com a Bolívia e uma parede de pedra na Serra da Muralha, em Rondônia.
Para Neves, o LiDAR reduziu o tempo necessário para observar grandes áreas. “Com o LiDAR, em uma manhã de trabalho de campo você faz algo que antes levava um mês”, afirmou.
Ocupação em larga escala
Geoglifos e estruturas de terraplanagem indicam que alguns núcleos humanos tinham grande escala e exigiam muita mão de obra para construção e manutenção. “Hoje, fala-se muito em urbanismo antigo na Amazônia”, disse Neves. Segundo ele, alguns locais podem ter abrigado cidades.
As estimativas atuais apontam que a população humana da Amazônia antes da chegada dos portugueses variava entre oito milhões e dez milhões de habitantes. Caso a estimativa de três milhões para os aquiry seja confirmada, esses números podem ser revisados. A inferência ainda tem margem de erro.
Pesquisas anteriores já haviam questionado a ideia de que os povos amazônicos viviam apenas em aldeias autônomas. Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, descreveu no Alto Xingu, em Mato Grosso, um modelo de “cidades-jardins”, com núcleos de habitação, mata e lavouras conectados em uma área extensa.
Os estudos foram realizados na terra indígena dos Kuikuro. As aldeias circulares do povo, ligadas por trilhas, mantêm características associadas às cidades-jardins descritas por Heckenberger. O projeto, hoje dirigido por Helena Lima, do Museu Paraense Emilio Goeldi, começou a adotar o LiDAR.
Agricultura diversificada
A tecnologia não substitui as escavações, que permitem reconstituir a história dos povos antigos. Também avançaram as análises de composição de ossos, de grãos microscópicos, de DNA antigo e de sua relação com plantas e indígenas atuais.
Essas pesquisas mostram que a agricultura amazônica era mais variada do que a ideia de um repertório concentrado na mandioca. Há indícios de domesticação de milho, abóboras, inhame, cacau, cupuaçu e arroz a partir de variedades selvagens.
José Iriarte, da Universidade de Exeter, afirma que a domesticação do arroz ocorreu de forma independente três vezes na História. Uma delas foi na Amazônia, há cerca de 4 mil anos; as outras ocorreram na China, há 10 mil anos, e na África, há dois milênios.
Na primeira fase do Amazônia Revelada, foram mapeados 1.600 km² de floresta. A segunda fase, iniciada no meio deste ano, pretende alcançar 60 mil km².




