SÃO PAULO — A campanha eleitoral brasileira de 2026 será marcada pela circulação de cortes nas redes sociais, pelo uso de inteligência artificial e pela crise de legitimidade do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo Arthur Murta, professor de Relações Internacionais da PUC São Paulo.
Para Murta, a forma de acompanhar as eleições mudou e reduziu o contato dos eleitores com o contexto mais amplo das campanhas. “A comunicação mudou radicalmente”, afirmou. Na avaliação do professor, a população passou a acompanhar principalmente trechos de vídeos e matérias, sem o mesmo envolvimento prolongado de outros períodos.
O início oficial da campanha ocorreu em 16 de agosto, com a liberação de comícios, carreatas e propaganda na internet. A propaganda gratuita no rádio e na TV começou em 28 de agosto. Murta considera que a crise do STF diferencia o pleito desde a redemocratização, quando as eleições diretas foram retomadas a partir de 1989.
Disputa presidencial
O professor afirma que ainda não há um candidato amplamente favorito. No levantamento mais recente da Atlas Intel/Bloomberg, feito na última quinta-feira (17/09), Lula aparece com 44,1% contra 41,7% de Flávio Bolsonaro na primeira rodada. Na segunda, o bolsonarista registra 47,2% contra 46,8%, resultado dentro da margem de erro de um ponto.
Nesse cenário, Murta avalia que uma campanha de mudança de voto é difícil, porque a parcela de indecisos ou independentes é pequena. Segundo ele, esses eleitores estão mais alinhados a Flávio Bolsonaro. Em comparação com 2022, não haveria a mesma percepção de necessidade de mudança associada aos quatro anos anteriores.
Os indicadores econômicos também entram na avaliação do eleitor independente. Murta diz que o país melhorou radicalmente na comparação com quatro anos atrás, mas que a população não percebe essa melhora na própria vida. O endividamento, na visão do professor, ajuda a explicar essa distância entre os dados econômicos e a percepção dos eleitores.
Ele aponta as bets, a sociedade de consumo e as redes sociais como fatores centrais do endividamento. Mesmo assim, afirma que o eleitor tende a atribuir a dificuldade ao governo e pode considerar que uma mudança administrativa melhoraria sua situação.
Eleições para os governos
Murta também identifica uma diferença em relação a 2022: o movimento antibolsonarista estaria menos forte. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes teria condições de disputar o governo sem se associar diretamente a Lula, por contar também com eleitores bolsonaristas.
Em São Paulo, Tarcísio de Freitas, embora alinhado ao bolsonarismo, teria eleitores de Lula e não buscaria uma associação automática da campanha com Flávio Bolsonaro. Para o professor, candidatos aos governos estaduais tentam ocupar um espaço capaz de dialogar com o eleitor independente, em campanhas menos vinculadas a um dos nomes da disputa presidencial.



