CABUL — Quase 2,5 milhões de meninas afegãs estão impedidas de frequentar o ensino secundário. Em meio à proibição imposta pelo Talibã, escolas clandestinas funcionam em diferentes partes do país para manter estudantes em contato com professores, colegas e conteúdos educacionais.
Ayesha, de 18 anos, frequenta uma dessas escolas seis dias por semana. As aulas ocorrem em uma sala escondida dentro de uma escola primária, com acesso por uma passagem discreta. Ela pretendia estudar psicologia, mas perdeu essa possibilidade quando o Talibã proibiu a educação formal para meninas depois do 6º ano, em 2022.
Para evitar a descoberta, as alunas mudam os caminhos até a escola e não circulam em grupos. Em uma manhã de julho, integrantes do Talibã entraram no local durante uma prova de física. O diretor trancou as estudantes na sala, e 14 jovens continuaram respondendo às questões em silêncio.
Diretores, professores e pais mantêm as aulas em segredo. As estudantes também podem recorrer a escolas religiosas, chamadas madrassas, ou a professores particulares em casa. Algumas tentam ser reprovadas no 6º ano para permanecer por mais tempo na escola.
A proibição afeta também as perspectivas depois da formação. O Talibã restringiu a presença das mulheres na maioria dos empregos, e as oportunidades de deixar o país são limitadas. Professores e organizações humanitárias relatam aumento de pensamentos suicidas, automutilação e casamentos de menores de idade.
Educação primária e aulas on-line
Segundo a Unesco e o Unicef, a matrícula de meninas no ensino primário subiu de 78%, em 2021, para 87% em 2024. Ao mesmo tempo, nove em cada dez crianças afegãs de 10 anos não conseguem ler um texto adequado para sua idade. Apenas uma em cada quatro mulheres afegãs é alfabetizada.
Laila, de 21 anos, mudou-se para uma escola secreta localizada a mais de 800 quilômetros de sua casa para estudar ciência da computação e idiomas. Ela frequenta aulas durante o dia e estuda on-line à noite com professores voluntários de países como os EUA e a Holanda. Fala quatro idiomas e está aprendendo coreano.
Laila afirma que pretende estudar design gráfico no Canadá ou na Coreia do Sul caso consiga deixar o Afeganistão depois da formação. Ayesha, por sua vez, orienta colegas e é chamada de “aprendiz de terapeuta” pelas amigas. Ela diz que a escola é sua principal forma de convivência fora de casa.
As escolas secretas não oferecem continuidade indefinida. Ayesha deixará de ter aulas em alguns meses, porque não existe escola clandestina depois do 3º ano do Ensino Médio.
Reprovação como forma de permanecer
Somaya, de 12 anos, deixou de fazer provas de língua dari, estudos sociais e estudos do Alcorão ao concluir o 6º ano. A intenção era repetir a série. Fatima, também de 12 anos, rasgou as provas finais no ano passado para tentar ser reprovada, mas acabou aprovada.
Em Cabul, o pai de Fatima, Azizullah, chorou ao lembrar que a filha queria ser médica. Tasnim, professora do ensino primário, chegou a convencer uma colega a colocar sua filha, Kowsar, novamente em sua turma após a conclusão do ensino.
O Talibã já havia proibido o ensino primário e secundário para meninas entre 1996 e 2001. Depois de retornar ao poder, em 2021, voltou a afirmar que a restrição ao sistema público de ensino seria temporária.



