BUENOS AIRES, ARGENTINA — O acordo de paz colombiano chega a dez anos com avanços na reincorporação de ex-combatentes, mas expansão de grupos armados, deslocamentos e massacres. Mais de 13 mil pessoas deixaram as armas, e cerca de 85% seguem em processos de retorno à vida civil.
A implementação, porém, permanece atrasada. O Kroc, instituto de estudos para a paz da Universidade Notre Dame, calcula que apenas 36% das 578 cláusulas do acordo haviam sido completamente executadas em 2025. Outras 8% ainda não tinham sido iniciadas. O prazo para concluir os compromissos termina em 2031.
Violência e proteção aos ex-combatentes
A Força Pública da Colômbia registrou 6.519 integrantes nas três principais organizações armadas do país em 2017. Em 2025, eram 24.610 combatentes distribuídos em quatro grupos.
Os deslocamentos forçados também aumentaram. A Unidade para as Vítimas informou que mais de 290 mil pessoas foram deslocadas no ano passado. O número de mortos em massacres subiu de 137 em 2016 para 256 em 2025, segundo o Indepaz.
A proteção de ex-guerrilheiros está entre os compromissos considerados pendentes por Paola Molano Ayala, mestre em direito internacional pela Universidade de Nova York. Relatório divulgado em julho pela Missão de Verificação das Nações Unidas na Colômbia aponta que 493 ex-combatentes foram mortos desde a assinatura do acordo.
Para Ayala, territórios antes controlados pelas Farc não foram ocupados integralmente pelas instituições, o que permitiu o retorno da violência. Ela também destaca os Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial: entre 2018 e 2024, a iniciativa reduziu, em média, em mais de 15 pontos percentuais a pobreza multidimensional nos 170 municípios mais afetados pelo conflito.
Mudanças políticas
O pacto foi assinado inicialmente em 26 de setembro de 2016, em Cartagena, por Juan Manuel Santos e Rodrigo Londoño. O documento encerrou uma guerra de 52 anos e rendeu a Santos o Nobel da Paz daquele ano.
O texto foi rejeitado em plebiscito por 50,2% dos votos, contra 49,8% favoráveis, diferença de 54 mil votos. A versão em vigor foi assinada em novembro, no Teatro Colón, em Bogotá.
A oposição continuou durante os governos seguintes. Iván Duque defendeu mudanças no acordo, enquanto Gustavo Petro, eleito em 2022 como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, priorizou a estratégia de “paz total” nas negociações com grupos armados remanescentes.
O presidente Abelardo de la Espriella pretende destinar 12,94 trilhões de pesos colombianos, equivalentes a R$ 20,5 bilhões, para a implementação do acordo no orçamento do ano que vem. O valor é 37% menor que os 20,56 trilhões de pesos, ou R$ 32,5 bilhões, previstos para 2026.
Para Andrei Gómez Suárez, especialista em resolução de conflitos armados, a continuidade do acordo depende do compromisso do Estado, e não apenas da posição de cada governo. Ainda assim, ele afirma: “não se pode dizer eu não diria que a paz com as Farc fracassou ou chegou ao fim”.



