Funcionários da Casas Bahia relataram que os sinais da crise apareceram cerca de dois meses antes de 1,9 mil demissões e do fechamento de 297 lojas. Entre os problemas estavam a falta de eletrodomésticos considerados carro-chefe da rede, como geladeiras, além de celulares, notebooks e máquinas de lavar.
A ex-vendedora Talita Magalhães, de 42 anos, afirmou que trabalhou por mais de oito anos na empresa e nunca havia presenciado falta de produtos. Segundo ela, os estoques diminuíram, mas as metas dos vendedores permaneceram iguais, o que dificultava o cumprimento dos objetivos e provocava perda de vendas.
“A gente perdia venda porque o cliente queria levar o produto na hora e não tinha estoque”, disse Talita.
Demissões e comunicação
Talita contou que, na véspera das demissões, os funcionários foram chamados para uma reunião. Parte da equipe esperava uma transferência para outras lojas, mas os trabalhadores foram chamados individualmente para assinar os desligamentos.
Vanessa Marques, ex-coordenadora de tecnologia, de 46 anos, disse que inicialmente interpretou os atrasos nos pagamentos de fornecedores e a redução da equipe de prestadores como uma desorganização financeira. Ela também afirmou que a diretoria dizia aos funcionários que a situação estava normal, inclusive após o recebimento da Participação nos Lucros e Resultados em abril.
Vanessa relatou falta de padrão na comunicação interna, com trabalhadores sem códigos necessários para solicitar o seguro-desemprego e outros sem conseguir realizar o exame demissional.
Verbas e recuperação judicial
Após o pedido de recuperação judicial, em 16 de agosto, os demitidos foram incluídos na lista de credores da Casas Bahia, e o pagamento das verbas rescisórias ficou paralisado. Pela CLT, esses valores devem ser pagos em até 10 dias corridos, mas os trabalhadores passaram a aguardar a definição do plano de pagamento.
João André Vidal de Souza, representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio, afirmou que muitos funcionários ainda não sabem quanto têm a receber nem quando poderão receber.
Talita disse que não recebeu as verbas rescisórias nem a multa de 40% do FGTS. Também relatou o cancelamento do plano de saúde e a falta de pagamento do vale-alimentação. Muitos trabalhadores ainda não conseguiram acessar o FGTS e o seguro-desemprego.
A Justiça determinou a reintegração provisória dos funcionários e a retomada dos benefícios. O corregedor-geral da Justiça do Trabalho, ministro José Roberto Freire Pimenta, negou o pedido da empresa para derrubar a decisão.
A Casas Bahia afirmou que os funcionários demitidos estão assegurados e que os valores das rescisões seguem as regras previstas no processo de recuperação judicial.



