A formulação atribuída a Sêneca costuma ser apresentada como “sofremos mais na imaginação do que na realidade”. Mas, na carta 13 a Lucílio, o filósofo usou a palavra opinião, e não imaginação.
O texto afirma que há mais coisas que assustam do que aquelas que realmente esmagam, além de dizer que sofremos mais vezes pela opinião do que pela realidade. A ideia tem duas etapas: tememos mais ameaças do que danos efetivamente enfrentados e, muitas vezes, somos derrubados pelo julgamento feito sobre um acontecimento, não apenas pelo acontecimento.
A diferença entre opinião e imaginação
No estoicismo, o fato e o julgamento sobre o fato são tratados como camadas distintas. O acontecimento ocorre sem depender da pessoa. Já a avaliação — como considerar algo terrível, destrutivo ou inadmissível — pode ser examinada e revisada.
Por isso, a escolha da palavra opinião muda o sentido da frase. Imaginação sugeriria que o problema está em criar perigos inexistentes ou pensar em excesso. Opinião aponta para o veredito dado a fatos que podem realmente ter acontecido. A proposta, nesse caso, não é deixar de pensar, mas avaliar se o julgamento se sustenta.
Sêneca foi Lúcio Aneu Sêneca, nascido por volta do ano 4 a.C. em Córdoba, na Hispânia. Atuou como senador e dramaturgo, acumulou uma das maiores fortunas de Roma e foi tutor de Nero. Depois, tornou-se conselheiro do imperador e acabou vítima dele.
As Cartas a Lucílio foram escritas no fim da vida, após o afastamento da corte. A obra reúne 124 cartas dirigidas a um amigo e apresenta reflexões de filosofia prática. Em 65, acusado de conspiração, Sêneca recebeu de Nero a ordem de cometer suicídio e a cumpriu.
O alcance da reflexão
A carta não afirma que todo medo é fantasia ou que nenhum mal acontece. O ponto é o sofrimento antecipado: a pessoa sofreria antes do dano e novamente quando ele ocorresse. Prever pode ser útil; adiantar o desgaste, não.
A reflexão também não se apresenta como tratamento para sofrimento decorrente de condição clínica. Trata-se de um exercício filosófico do século 1.
A frase continua sendo citada por descrever a ansiedade da espera antes de um resultado de exame, de uma reunião difícil ou de uma conversa adiada. A versão popular recomenda parar de imaginar. A formulação atribuída à carta propõe identificar o julgamento feito sobre o fato e examiná-lo.



