A passagem de Khalil Gibran sobre pais, filhos e o arco costuma ser reproduzida apenas até a imagem das flechas. Com isso, ficam de fora tanto a abertura — os filhos não pertencem aos pais — quanto o encerramento, dirigido a quem permanece depois da partida.
O trecho está em O Profeta, publicado em 1923. Gibran afirma que os filhos vêm através dos pais, mas não deles; podem receber amor, mas não os pensamentos dos adultos. Também não devem ser moldados para se tornarem cópias de quem os criou.
A metáfora reúne três posições: o arqueiro, os pais e os filhos. O arqueiro não é identificado e pode ser interpretado como Deus, a vida ou o impulso criador. Os pais são o arco; os filhos, as flechas. O arco é tensionado e se curva para dar alcance ao disparo, mas não acompanha a flecha depois que ela parte.
O final acrescenta que o arqueiro ama tanto a flecha que voa quanto o arco que permanece firme. A ideia não é de ausência ou indiferença. O arco representa a origem da força, e Gibran diz que os pais devem dar amor aos filhos. O argumento é contra a posse, não contra o vínculo.
O contexto do poema
A passagem não foi escrita especificamente para pais de filhos adultos. Em O Profeta, Almustafa responde a perguntas antes de deixar a cidade onde viveu doze anos. A pergunta sobre os filhos é feita por uma mulher que segura um bebê.
Assim, o trecho funciona em momentos diferentes. Para quem acabou de ter um filho, é uma advertência contra a ideia de propriedade. Para quem vê um filho adulto sair de casa, é uma constatação sobre a permanência de quem fica.
Khalil Gibran nasceu em Bsharri, no Líbano, em 6 de janeiro de 1883. Ainda criança, mudou-se com a família para Boston. Mais tarde, escreveu O Profeta em inglês, sua segunda língua, enquanto vivia em Nova York.
Criado na tradição cristã maronita, recebeu influência do misticismo sufi e dos poetas românticos. Morreu em 1931, aos 48 anos. Nunca se casou e nunca teve filhos.
O poema não promete que a separação seja indolor nem funciona como manual de criação. Sua proposta é separar amor e posse: os pais continuam tendo valor mesmo quando deixam de controlar a trajetória dos filhos.



