Um levantamento do Instituto Dara identificou divergência entre a autodeclaração racial e a classificação feita por pesquisadores em 1.331 candidaturas à Câmara dos Deputados. O grupo reúne candidatos que se declararam pretos ou pardos, mas foram considerados brancos ou amarelos na avaliação racial.
A pesquisa cruzou os registros de 7.610 candidatos com a classificação atribuída por cinco especialistas em estudos raciais às fotos de urna. O resultado representa 36% dos candidatos que se autodeclararam pretos e pardos e 17% do total de candidaturas analisadas.
O método usado foi a heteroclassificação racial múltipla e tolerante. Cada pesquisador classificou as imagens, de forma independente, em uma das categorias do IBGE: amarela, branca, indígena, parda ou preta. A divergência foi registrada quando quatro dos cinco avaliadores consideraram branca ou amarela uma candidatura declarada como preta, parda ou indígena.
Financiamento eleitoral
Segundo os autores Luiz Augusto Campos e Juliana Alves Marques, o objetivo foi identificar possíveis fraudes no acesso ao financiamento eleitoral. A legislação determina que pelo menos 30% dos recursos do fundo especial e do fundo partidário sejam destinados a candidaturas de pessoas pretas ou pardas. Os votos desses candidatos também têm peso dobrado no cálculo da distribuição futura de recursos públicos aos partidos.
O estudo afirma que a autodeclaração é feita pelo próprio candidato no cadastro eleitoral e não passa por comissão de heteroidentificação. Em caso de fraude constatada pela Justiça e pelo Ministério Público, pode haver cassação do mandato e condenação por falsidade ideológica eleitoral.
Luiz Augusto Campos afirmou que uma hipótese, sem considerar fraudes intencionais, é o preenchimento descuidado dos registros. “Vimos partidos inteiros com candidatos pardos”, disse. De acordo com ele, mesmo sem intenção de fraude, o registro pode beneficiar partidos nas regras de financiamento eleitoral.
O União Brasil concentrou 24% das ocorrências mapeadas, seguido por PP e Podemos, com 22% cada, e PSTU, com 21%.
Deputados no ranking
Silvye Alves, do União Brasil, lidera entre os deputados eleitos em 2022 com divergência na classificação. Declarada parda, ela foi considerada branca e recebeu 254.653 votos em Goiás, sendo eleita pelo quociente partidário.
A chefia do gabinete disse que a autodeclaração como parda não foi feita exclusivamente para as eleições de 2026. Também afirmou que houve erro do partido no registro inicial e que a deputada pediu a correção da informação.
Elmar Nascimento, do União Brasil, aparece em seguida. Ele se declarou pardo, foi classificado como branco e recebeu 175.439 votos. Domingos Neto, do PSD, ocupa a terceira posição, com 175.074 votos, também eleito pelo quociente partidário.
Altineu Côrtes, Neto Carletto e Pedro Lucas Fernandes completam os nomes mais votados nas eleições anteriores entre os casos citados no levantamento.
Outro estudo, do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, analisou disputas entre 2014 e 2022. A pesquisa concluiu que a esquerda reúne candidaturas mais próximas da proporção da população negra, mas a direita apresenta taxas de sucesso maiores entre os eleitos. A taxa mede a relação entre eleitos e candidatos e não indica o número absoluto de candidaturas negras.




