Temperaturas de até 45,5ºC ampliam a pressão sobre a saúde, a produtividade e a infraestrutura da Índia. O país registrou mais de 700 ondas de calor nas últimas cinco décadas, e três em cada quatro distritos estão vulneráveis a eventos extremos.
Em Agra, onde fica o Taj Mahal, o pico chegou a 45,5ºC no dia 27 de abril. Em Nova Délhi, os termômetros marcaram 44ºC. O calor também atingiu a atividade econômica: a estimativa é de queda de 2% na produtividade do setor manufatureiro para cada grau adicional, além de redução de até 16% na renda média.
Um estudo publicado pela Universidade Harvard apontou que 380 milhões de pessoas, ou três quartos da força de trabalho local, enfrentam alto grau de exposição ao calor. Até 2030, 200 milhões estarão sujeitas a condições letais, segundo o estudo, com perda de milhões de postos de trabalho. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicou que partes do país podem se tornar inabitáveis até 2070.
Resposta do governo
As ondas de calor foram incluídas no mês passado na lista de desastres nacionais. A medida permite o uso de verbas públicas em ações imediatas e futuras. Estados e distritos também elaboram medidas próprias.
Amit Prothi, diretor-geral da Coalizão para uma Infraestrutura Resiliente a Desastres (CDRI), disse que mais de 300 cidades já podem ter planos para enfrentar os riscos relacionados ao calor. A iniciativa lançada pela Índia em 2019 reúne mais de 50 países, agências da ONU e instituições públicas e privadas.
“Precisamos mencionar os episódios de calor extremo, e eles estão se agravando”, afirmou Prothi. Para ele, ainda há trabalhos em andamento, mas não um pacote único e integrado.
No estado de Tamil Nadu, os planos incluem telhados frios, ampliação de áreas arborizadas e ações para reduzir a temperatura nas escolas. Em Jodhpur, no Rajastão, moradores recebem alertas sobre ondas de calor iminentes. Em Nova Délhi, aulas e expedientes são adaptados aos picos de temperatura. A cidade, que tem 23 milhões de habitantes, também possui um plano com prazo até 2041 para criar áreas arborizadas, conectar regiões verdes por biocorredores e ampliar o uso de veículos elétricos com ar-condicionado.
Limites da adaptação
Pouco mais de 10% das residências indianas têm acesso a aparelhos de ar-condicionado. Nas áreas rurais, o índice fica abaixo de 2%. A expansão da climatização também elevaria a demanda por energia: a Agência Internacional de Energia estima que um aumento de 900% no número de aparelhos até 2050 exigiria eletricidade equivalente ao consumo de todo o continente africano.
Ventiladores são uma alternativa mais barata, mas a Organização Mundial de Saúde não recomenda seu uso em ambientes acima de 40ºC.
O calor também ameaça os planos econômicos do primeiro-ministro Narendra Modi, que está no poder desde 2014 e busca levar a Índia ao posto de terceira maior economia do mundo. Em Nova Délhi, as temperaturas elevadas podem reduzir em 5% a produção econômica até 2050. Nos dias quentes, a produtividade dos trabalhadores chega a ser 25% menor do que em períodos mais amenos.
O Centro de Resiliência Climática, ligado ao Atlantic Council, afirmou que as perdas podem ser maiores quando considerados danos à infraestrutura e ao maquinário, custos de saúde e efeitos indiretos da menor produtividade.
A questão também tem peso político para Modi e seu partido, o BJP. Em 2021, produtores rurais protestaram contra mudanças no modelo agrícola e os efeitos das mudanças climáticas sobre as lavouras. No ano passado, manifestantes foram detidos durante um ato contra a poluição na capital indiana. As próximas eleições estão previstas para 2029.




