A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como “nível crítico” o risco de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano. A avaliação está em um relatório reservado enviado em agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça.
O documento identifica uma tendência de aumento da pressão dos EUA sobre o Brasil e menciona uma mudança na forma de atuação americana, sem romper com um padrão de influência já existente. A análise também aponta que o segundo governo Trump busca reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina e limitar o acesso de potências rivais a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região.
Segundo o relatório, o Brasil tem um governo com disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica diante de pressões por concessões e realinhamento geopolítico.
Sanções e efeitos financeiros
A Abin relaciona a escalada a medidas anunciadas por Washington em julho deste ano contra dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma em Portugal. As sanções foram atribuídas a supostos vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Na avaliação da agência, a iniciativa marcou uma mudança de fase. A pressão passou a alcançar relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e terceiros sujeitos a riscos de sanções secundárias.
O relatório descreve a interferência como gradual, combinada e adaptativa. Entre os passos citados estão o enquadramento de uma organização criminosa brasileira como ameaça à segurança nacional dos EUA, a associação do tema à sua atuação transnacional, a ligação com o sistema financeiro americano e a aplicação de sanções específicas a brasileiros e empresas.
A Abin avalia que as medidas podem ampliar efeitos extraterritoriais sobre bancos, fintechs, empresas, prestadores de serviços e cadeias produtivas brasileiras. Também prevê que agentes econômicos adotem medidas preventivas por causa de riscos reputacionais, do acesso ao sistema financeiro americano ou do temor de novas sanções.
O relatório menciona declarações de Marco Rubio, secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Segundo a agência, Rubio atribuiu ao presidente brasileiro Lula a responsabilidade pela imposição de tarifas, sob a alegação de que o Brasil não teria negociado de boa-fé.
Para a Abin, a declaração personalizou a ação política americana e pode afetar o debate público no Brasil. A agência também aponta componente ideológico na atuação de Rubio, com tentativa de influenciar a política externa dos países da América Latina.
Durante audiência no Senado, em junho, Rubio relacionou a recuperação da hegemonia americana na região à ascensão de governos alinhados aos EUA. Na ocasião, Brasil, Colômbia, Cuba, Nicarágua e Venezuela foram citados como países que não integravam a lista de governos amigáveis.




