Uma escultura de Cristo crucificado, feita em madeira por um artista europeu do século 16, foi retirada do gabinete presidencial do Palácio do Planalto quando Lula deixou a Presidência, em janeiro de 2011. A peça, porém, fazia parte dos presentes pessoais recebidos pelo ex-presidente e não do acervo do palácio.
O crucifixo havia pertencido a Mauro Morelli, bispo da Diocese de Duque de Caxias, que o colocou à venda em 2002. José Alberto de Camargo, presidente da CBMM e conselheiro do Instituto da Cidadania, comprou a obra e, por sugestão de Frei Betto, presenteou Lula. Frei Betto abençoou a peça e convenceu o então presidente a instalá-la no gabinete.
A escultura permaneceu no local durante oito anos e apareceu em dezenas de fotografias oficiais. Depois da mudança de governo, surgiram boatos de que Dilma Rousseff teria ordenado a retirada do crucifixo e de uma Bíblia por ser ateia. Também passou a circular a alegação de que a peça pertencia ao Palácio do Planalto e havia sido levada por Lula.
A origem do boato
Em 26 de fevereiro de 2011, a revista Época publicou uma matéria explicando que o crucifixo não integrava o acervo palaciano e pertencia ao ex-presidente. Mesmo assim, a campanha “Devolve, Lula” continuou. Uma fotografia de Itamar Franco no Palácio do Planalto foi usada para sustentar que a escultura estaria no prédio desde o governo Itamar Franco, nos anos 1990.
A imagem era verdadeira, mas havia sido registrada em 2006, durante uma visita de Itamar ao palácio, já no fim do primeiro mandato de Lula. Em março de 2016, a revista Veja voltou ao tema e apresentou a peça como uma obra de Aleijadinho, embora a escultura fosse atribuída a um artista europeu anônimo do século 16. No mesmo mês, a revista Época publicou que o crucifixo havia “desaparecido de uma hora para outra” do gabinete.
A Polícia Federal e o procurador Deltan Dallagnol passaram a investigar o paradeiro da obra. Durante a operação Aletheia, agentes foram ao apartamento de Lula. Documentos encontrados no local indicavam que o acervo pessoal do ex-presidente estava guardado em um cofre do Banco do Brasil.
Em março de 2016, a Polícia Federal informou ter localizado 23 caixas com presentes de Lula, incluindo o crucifixo. A descoberta foi apresentada como evidência de que a peça pertenceria ao Estado brasileiro. Reinaldo Azevedo acusou Lula de ter “passado a mão” em um crucifixo do século 16.
Cinco dias depois, o procurador Januário Paludo informou a Dallagnol que a investigação havia se baseado em uma informação falsa disseminada pelo WhatsApp. Diálogos publicados pelo The Intercept mostraram a reação de Dallagnol à localização da peça.
Após a checagem da Lei 8.934, que trata dos bens de ex-presidentes da República, os procuradores concluíram que Lula não havia cometido irregularidade relacionada ao crucifixo. Ainda assim, as acusações continuaram circulando na internet.




