O ataque de Israel à base aérea de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, foi interpretado por especialistas como uma tentativa de limitar a presença turca no país e fortalecer, internamente, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
As Forças de Defesa de Israel bombardearam a cidade e a base estratégica em 18 de setembro. A chancelaria síria classificou a ação como violação de sua soberania e integridade territorial. Foi o primeiro ataque ao local desde a queda de Bashar al Assad, em dezembro de 2024.
Na terça-feira (24/09), durante a 81ª Assembleia Geral da ONU, Netanyahu afirmou que Israel trava uma guerra em sete frentes, incluindo a Síria. O premiê também se dirigiu ao presidente sírio Ahmed al-Sharaa e mencionou a presença histórica do povo judeu nas Colinas de Golã.
Para Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, o bombardeio representa uma tentativa de intimidação da relação entre Ancara e Damasco. Segundo ele, Israel busca estabelecer limites para a atuação turca na Síria, embora a presença de Ancara não represente uma ameaça real à segurança israelense.
Zahreddine também relacionou a ação à política doméstica de Israel. Para o professor, Netanyahu usa a existência de novos inimigos para sustentar o governo de extrema direita e suas alianças políticas.
Monique Sochaczewski, professora do IDP e senior fellow do CEBRI, associou o ataque à doutrina militar adotada por Israel depois do 7 de outubro. A estratégia teria como objetivo impedir a formação de novas ameaças, enquanto Netanyahu tentaria reforçar, diante do eleitorado, a ideia de que Israel está permanentemente sob risco.
Disputa regional
Sochaczewski afirmou que Israel e Turquia mantiveram relações historicamente boas, mas passaram a se enxergar como competidores regionais. Israel se alinha a Chipre, Grécia e Somalilândia; a Turquia, à Somália.
A professora também apontou diferenças entre os projetos de expansão de Israel e da Turquia no Oriente Médio. Segundo ela, Ancara aproveita o período de instabilidade para ampliar seu papel regional, inclusive na Líbia.
O Ministério da Justiça turco pediu alertas vermelhos da Interpol contra Netanyahu e Afex Moskovitch, réus por genocídio em Istambul. O anúncio foi feito pelo ministro Akin Gürlek em resposta à Flotilha Global Sumud. Para Zahreddine, a medida busca expor Israel e conquistar apoio árabe, muçulmano e palestino. Sochaczewski avaliou que a iniciativa oferece uma resposta sem ação militar.
A Síria é estratégica para a Turquia pela posição geográfica e pela presença curda no nordeste, região autônoma apoiada pelos Estados Unidos. Zahreddine disse que Ancara tenta impedir a formação de um corredor no norte da Síria, do Iraque e do noroeste do Irã junto à fronteira turca.
O professor afirmou ainda que um dos objetivos turcos é dificultar a consolidação de uma região autônoma curda na Síria. As forças curdas YPG são vistas pela Turquia como uma extensão do PKK, grupo separatista que atua contra o Estado turco há décadas.



