SÃO PAULO — Uma das caixas-pretas do Boeing 737 da Gol envolvido no acidente do voo 1907 está exposta na sede da companhia, na zona sul de São Paulo. O memorial lembra a colisão aérea que, há 20 anos, matou 154 pessoas e provocou mudanças na investigação de acidentes no Brasil.
A aeronave, de matrícula PR-GTD, seguia de Manaus para o Rio de Janeiro, com escala em Brasília, em 29 de setembro de 2006. O choque com um Embraer Legacy 600 ocorreu a cerca de 37 mil pés, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso. O jatinho havia saído de São José dos Campos (SP) com destino a Fort Lauderdale (EUA).
O Boeing perdeu cerca de um terço da asa esquerda e se desintegrou durante a queda em uma área de mata fechada. Nenhuma das pessoas a bordo sobreviveu. O Legacy perdeu parte da ponta da asa, mas conseguiu pousar na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. As sete pessoas a bordo sobreviveram. Os dois pilotos foram condenados, mas não cumpriram pena e moram nos Estados Unidos.
Separação entre investigação e responsabilização
O relatório final do Cenipa, órgão da Força Aérea Brasileira, não atribuiu à tripulação da Gol ou à empresa falhas que contribuíssem para a colisão. A apuração identificou uma cadeia de fatores, principalmente ligada à operação do Legacy e ao controle de tráfego aéreo.
A partir do acidente, ganhou força a separação entre a investigação voltada à prevenção e as apurações sobre crimes e responsabilidades. A mudança foi incorporada ao Código Brasileiro de Aeronáutica pela Lei 12.970, de 2014. O Cenipa passou a concentrar a análise das causas e a definição de medidas preventivas, enquanto polícia, Ministério Público e Justiça apuram responsabilidades legais. Em 2024, o STF confirmou a validade do modelo.
Controladores de voo militares foram condenados a ao menos dois anos de reclusão após investigação policial e denúncia do MPF. Eles acabaram excluídos das forças armadas.
Alterações em equipamentos e treinamento
O especialista em segurança de voo Douglas Avedikian afirma que o caso foi a primeira responsabilização criminal com esse formato na história da aviação brasileira. Ele também aponta aumento gradual do número de controladores, investimentos em radares, softwares e sistemas de comunicação e a consolidação da Anac como órgão regulatório.
Entre as recomendações citadas estão ajustes em treinamentos e reciclagens, com ênfase na proficiência em inglês técnico, além de atualizações nos manuais de voo. A investigação também levou a melhorias na ergonomia das cabines e dos alertas de sistemas críticos e ao reforço do treinamento em simuladores.
O transponder do Legacy passou para o modo de espera sem que os pilotos percebessem. Com isso, o sinal de altitude deixou de aparecer no radar, e o sistema anticolisão TCAS não funcionou como deveria.
Busca e resgate
O major-brigadeiro Jorge Kersul Filho coordenou a operação na Serra do Cachimbo e a logística na fazenda Jarinã, a 40 quilômetros do local da queda, além da base aérea do Cachimbo. O trabalho levou 54 dias, até o resgate do corpo do bancário Marcelo Paixão Lopes.
As memórias estão no livro “Ninguém Ficou para Trás: A Operação de Busca e Resgate do Voo 1907”, escrito há dez anos por Maria Tereza Kersul. A Gol afirma que mantém a memória e o respeito aos passageiros, tripulantes e familiares e que o aprendizado do acidente orienta seus processos de segurança.




