SANTA CATARINA — Vanderlei Pedroso Pereira está preso por matar duas companheiras e tentar assassinar uma terceira. O caso do morador de Brusque integra o cenário de 274 homens detidos atualmente em Santa Catarina por feminicídio.
A primeira vítima conhecida pela Justiça foi Maria*, que manteve um relacionamento de dois anos com Vanderlei. Segundo o relato, ela sofreu agressões e ameaças até terminar a relação. Mesmo com uma medida protetiva em vigor, o homem invadiu a casa dela, a estuprou e a levou à rua com uma faca no pescoço. A mulher conseguiu correr, mas foi atingida por nove facadas. Um vizinho ouviu os gritos e interrompeu a ação.
Em agosto do ano seguinte, Vanderlei foi condenado a três anos e meio por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil e desobediência. Ele cumpriu a pena em liberdade. Maria relatou que passou a trabalhar e circular com medo, fez acompanhamento psicológico e manteve o endereço sob sigilo.
Enquanto ainda tentava superar o trauma, ela soube que o agressor havia matado outra companheira. Em junho de 2015, ele recebeu condenação de 20 anos por homicídio qualificado por motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima.
O crime se repetiu em abril de 2025, quando Vanderlei assassinou uma terceira companheira. A sentença atual é de 53 anos e quatro meses por feminicídio com o agravante de surpresa. A legislação de 2024 elevou a faixa da pena para esse crime, de 20 a 40 anos de prisão.
“Ele não me matou porque não era a hora de eu morrer”, afirmou Maria.
Perfil dos autores
Os dados do Ministério Público de Santa Catarina, com base nos casos registrados entre 2020 e 2024, indicam que 64,4% dos feminicidas têm entre 25 e 44 anos. Em 67,3% dos casos, os autores não concluíram a educação básica; 53,6% têm filhos com a vítima; 72,6% têm pelo menos um registro policial; e 44,5% já haviam cometido violência doméstica contra uma mulher.
Patrícia Zimmermann D’Ávila, coordenadora das Delegacias de Proteção à Mulher de Santa Catarina, afirma que muitos crimes ocorrem em relações íntimas e que parte das vítimas não identifica a escalada da violência ou não registra boletim de ocorrência.
Santa Catarina teve a menor taxa proporcional de homicídios do país, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Ao mesmo tempo, seis em cada dez mulheres assassinadas no Estado foram vítimas de crimes ligados à questão de gênero. Nesse indicador, Santa Catarina aparece na quarta pior posição nacional.
Entre 2015 e 2025, os assassinatos totais no Estado caíram de 976 para 622. Os feminicídios, porém, passaram de 46 para 52. O maior número de mortes da série ocorreu em 2019 e 2023, com 58 casos em cada ano. O menor foi registrado em 2018, com 42.
A série anual registra: 2015, 976 assassinatos e 46 feminicídios; 2016, 1.037 e 54; 2017, 1.155 e 52; 2018, 940 e 42; 2019, 818 e 58; 2020, 811 e 57; 2021, 746 e 55; 2022, 686 e 57; 2023, 674 e 58; 2024, 689 e 51; e 2025, 622 e 52. Os dados são da SSP, do Observatório da Violência e do Anuário da Violência.



