O governo brasileiro avalia aplicar medidas de reciprocidade ou acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) depois que a União Europeia suspendeu a entrada de proteínas animais do país. A reação será considerada caso as negociações com o bloco não avancem rapidamente.
A medida começou a valer ontem e exige que o Brasil comprove não utilizar antibióticos na produção. O bloqueio atinge exportações de carne bovina, aves, pescados, ovos e mel.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e o Ministério da Agricultura e Pecuária negociam com os europeus uma tentativa de recolocar o Brasil na lista de exportadores autorizados. As indústrias negam falhas sanitárias. “Nós não temos um problema sanitário”, declarou Aniella Banat, diretora da ABIEC.
Pressão comercial e política
Especialistas avaliam que a decisão também atende a reivindicações políticas e protecionistas do agronegócio europeu. Robson Gonçalves, economista da FGV, afirmou que o embargo protege produtores locais da concorrência externa e avaliou que a União Europeia pode rever a exclusão de produtos como a carne.
Bruno Capuzzi, professor de Economia do Insper, disse que as questões sanitárias são justificáveis, mas que o tratamento dado ao Brasil foi mais rigoroso do que o aplicado a outros países. Para ele, opositores do acordo comercial com o Mercosul influenciaram a decisão.
O acordo entre os blocos entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio de 2026. A previsão é de redução gradual dos impostos sobre exportações, com a promessa de zerá-los após cerca de uma década. O tratado cria uma área de comércio com mais de 700 milhões de consumidores.
Rastreabilidade e impacto nas vendas
Associações de produtores desenvolveram um protocolo de rastreabilidade dos rebanhos. O sistema foi criado pela ABIEC e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), mas a adaptação da cadeia pode ser lenta e reduzir o fluxo comercial.
Jamile Diz, professora de Direito Europeu da UFMG, defendeu o aprimoramento dos controles ambientais e sanitários e negociações mais firmes. Gonçalves citou o Pará, que adotou uma política de monitoramento de todo o rebanho para atender às exigências europeias.
A União Europeia desembolsou US$ 1,05 bilhão em 2025 para importar carne bovina brasileira, valor equivalente a mais de 5% das exportações do produto pelo país. Segundo a associação do setor, o bloco oferece preços melhores e não tem substituto automático como mercado.



