O secretário de Estado de Washington, Steve Hobbs, afirmou na PAX West e na edição 2026 da SLICE que os games podem ser usados como ferramentas de soft power, ou poder brando. A ideia é influenciar consumidores e países por meio de artes, valores culturais e tecnologia, em vez do uso de coerção ou poder militar.
A reação à fala ocorreu porque Hobbs é um oficial militar de carreira e sua declaração foi interpretada como defesa da promoção de valores americanos nos games acima de outras culturas. O uso desse recurso, porém, é adotado por Estados Unidos, China, Japão, países europeus e também pelo Brasil.
O conceito de soft power foi criado no fim dos anos 1980 pelo cientista político Joseph Nye (1937–2025). A estratégia consiste em apresentar valores políticos, artísticos, culturais e sociais como produtos naturais, para que sejam consumidos e absorvidos em outros países.
Games como vitrine nacional
Cinema e televisão foram usados por Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria para divulgar pontos de vista a aliados e potenciais parceiros. A partir do início dos anos 1990, o soft power se consolidou como estratégia para conquistar apoio, enquanto a internet ampliou o acesso a esse tipo de influência.
A China utiliza televisão, cinema, música, quadrinhos e games na promoção de seus valores culturais, sociais e econômicos. Nos jogos online chineses e em títulos de estúdios que pretendem atuar no país, aparecem elementos ligados à cultura Han, grupo que representa 17% da população global, ou 1,4 bilhão de pessoas. O texto também afirma que referências a outras etnias locais, como manchus e uigures, não podem ser mencionadas.
O Japão transformou a expansão de anime e mangá, na segunda metade dos anos 1990, em uma vitrine cultural. Estúdios europeus, como CD Projekt Red e Ubisoft, também já associaram seus jogos a valores nacionais ou do bloco europeu.
Nos Estados Unidos, a série America's Army foi criada pelo Exército como ferramenta de recrutamento e depois distribuída em outras plataformas. Franquias como Call of Duty apresentam americanos como protagonistas e russos, chineses, árabes e norte-coreanos como inimigos recorrentes.
A Arábia Saudita entrou nesse mercado por meio do Public Investment Fund, do Savvy Games Group e de Mohammed bin Salman. Entre as iniciativas está o anúncio de 1001 Threads of Mizan. O envolvimento é questionado por acusações de violações de direitos humanos contra o governo saudita.
O debate também alcança países emergentes. No Brasil, games são usados para promover valores no exterior e para reagir à entrada de referências culturais e sociais consideradas incompatíveis com interesses locais. Para Hobbs, a controvérsia não está no uso do soft power, mas no fato de um americano defender publicamente essa estratégia.



