BRASÍLIA — A campanha de Flávio Bolsonaro para se apresentar como uma alternativa moderada dentro do bolsonarismo enfrenta novas pressões após a divulgação de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro. O senador teria cobrado aportes para um filme em homenagem ao pai, Jair Bolsonaro. Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir altas autoridades.
Segundo o Intercept Brasil, o banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a produção no ano passado. O financiamento total poderia chegar a R$ 134 milhões. Flávio nega ilegalidades e afirma que buscava patrocínio privado para uma obra sobre a história do próprio pai.
A relação com Vorcaro se soma a acusações antigas contra o senador, ligadas a suspeitas de rachadinha em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e a vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega. Flávio nega as acusações e afirma que sofre perseguição política.
Estratégia eleitoral
O senador tenta herdar o eleitorado de Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, reduzir a rejeição associada ao estilo e às posições do ex-presidente. Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio se apresenta como o Bolsonaro que tomou vacina e Fernanda, sua mulher, diz que o marido é um Bolsonaro moderado.
A estratégia também inclui publicações sobre Carnaval, feminicídios, creches e direitos das mulheres. Em abril, Flávio apareceu conversando com Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, durante a sessão que rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Depois, afirmou que o governo Lula havia acabado, enquanto também disse não ter participado das articulações pela rejeição.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o caso Vorcaro interrompe o esforço de reduzir a rejeição ligada ao sobrenome Bolsonaro e às acusações de corrupção. O senador, segundo ele, ainda disputa eleitores que não se alinham automaticamente com os polos da polarização.
Pesquisas internas da campanha indicaram crescimento entre jovens, classe média e mulheres. Nos levantamentos da Quaest, entre dezembro e maio, Flávio chegou a 45% contra 38% de Lula entre eleitores de 16 a 34 anos. Na faixa de renda entre 2 e 5 salários-mínimos, marcou 44%, ante 40% do presidente. Entre as mulheres, passou de 31% para 36%, ainda atrás de Lula, com 45%.
Acusações anteriores
A denúncia de rachadinha surgiu após o Coaf apontar movimentações milionárias na conta de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete de Flávio na Alerj. Segundo o Ministério Público, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões, em valores da época. O órgão afirmou que ao menos R$ 2 milhões foram para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados por saques em espécie.
O Ministério Público também apontou depósitos em dinheiro vivo na conta de Flávio e de sua mulher, além do pagamento de 169 boletos da escola das filhas e do plano de saúde da família, somando R$ 247 mil entre 2013 e 2018.
Flávio afirma que nunca respondeu criminalmente pelo caso e diz que Queiroz administrava recursos para contratar informalmente pessoas que trabalhavam em atividades parlamentares. O processo foi paralisado por decisões judiciais, e o Ministério Público informou que a investigação foi encerrada após decisão de Gilmar Mendes em fevereiro de 2025.
As suspeitas sobre Adriano da Nóbrega também remontam ao período de Flávio na Alerj. O senador homenageou o policial militar em 2003 e 2005. A mãe e a então mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete até 2018. Flávio afirma que não conhecia as acusações contra ele à época e nega defender milícias.




