O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) propõe reduzir despesas públicas, ampliar privatizações e flexibilizar relações trabalhistas. O documento também defende medidas para petróleo, gás, biocombustíveis e exploração de terras raras, retomando uma agenda associada ao governo de Jair Bolsonaro.
A equipe econômica reúne Daniella Marques, coordenadora da campanha e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, e Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia. O programa promete uma nova regra fiscal para estabilizar e depois reduzir a relação entre dívida e PIB.
A economista Juliane Furno, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), contesta a avaliação de que o endividamento seja a principal ameaça à economia. “A dívida pública brasileira é, fundamentalmente, denominada em reais, e não em dólares”, afirma. Para ela, um corte de gastos pode reduzir ainda mais a arrecadação e ampliar o déficit, dependendo das despesas atingidas.
O plano prevê uma redução de despesas equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB, com diminuição de ministérios, corte de cargos comissionados, combate a supersalários e venda de ativos da União. A proposta é apresentada como um “tesouraço” nos gastos públicos.
O historiador Valério Arcary, professor aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), considera incompatível combinar forte corte de gastos e redução de impostos com aumento real do salário mínimo e preservação de programas sociais. Dados do IBGE indicam que cerca de 69% dos trabalhadores ocupados recebem entre um e dois salários mínimos, enquanto quase 70% estão nessa faixa ou abaixo dela.
O plano também busca reduzir o custo do trabalho formal, recuperando a lógica da carteira verde-amarela. Arcary afirma que a flexibilização pode atingir direitos trabalhistas e cita a oposição de Flávio Bolsonaro à redução da jornada de 44 para 40 horas semanais e ao fim da escala 6 x 1.
A proposta ainda defende limitar o crédito subsidiado e ampliar o espaço dos mecanismos de mercado. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), mais de 2,5 mil intervenções de política industrial foram adotadas em 2023, com Estados Unidos, China e União Europeia responsáveis por quase metade das medidas.
Levantamento baseado em declarações de Imposto de Renda aponta que os 0,1% mais ricos elevaram sua participação na renda nacional de 10,2% em 2020 para 13,1% em 2024. Para os especialistas, a orientação econômica do programa tende a favorecer essa parcela da população.




