SÃO PAULO — A Polícia Federal identificou uma sequência de repasses entre empresas ligadas a pessoas próximas ao deputado federal Mario Frias (PL-SP), incluindo a produtora do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O documento da corporação aponta possíveis crimes de peculato, fraude e lavagem de dinheiro.
Repasses e empresas
Segundo a PF, R$ 2 milhões destinados aos projetos “Lutando pela Vida” e “Jovem Empreendedor” podem ter sido desviados após passarem pelo ICB (Instituto Conhecer Brasil), que recebeu as emendas. Os recursos teriam chegado a empresas relacionadas a ex-secretários parlamentares e advogados de Frias.
A LF&P Consulting, de Fábio Lago Meirelles, advogado do deputado, recebeu R$ 80 mil do ICB no “Jovem Empreendedor”, por dois contratos de serviços contábeis e jurídicos. Meirelles também recebeu R$ 69 mil da Complexsys entre outubro de 2024 e abril de 2026. A assinatura dele consta no Estatuto Social do ICB, e a empresa tinha endereço no mesmo edifício do instituto.
A Aguilera Martinez Sociedade de Advocacia, de Diego Aguilera Martinez, recebeu R$ 151.427,13 do ICB. O advogado afirmou que os serviços foram efetivamente prestados e que não houve irregularidade.
A PF também analisou a Complexsys, de Andre Feldman. A empresa recebeu ao menos R$ 154 mil de Frias, entre setembro de 2024 e abril de 2026, em recursos de cota parlamentar. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, movimentou mais de R$ 18 milhões, incluindo R$ 5 milhões recebidos do ICB e R$ 92.400,00 de Frias.
De 10 de outubro de 2025 a 28 de dezembro de 2025, a movimentação superou R$ 10 milhões. Nesse intervalo, a empresa recebeu mais de R$ 3 milhões do ICB e R$ 23 mil de Frias. De 29 de dezembro de 2025 a abril de 2026, movimentou mais de R$ 8 milhões, com R$ 1.844.051,44 recebidos do ICB e R$ 30.800,87 do deputado.
A Complexsys disse refutar todas as imputações e afirmou que o contrato com o gabinete de Frias atende às exigências legais.
Ex-secretários e campanha
Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário parlamentar de Frias, foi alvo de busca e apreensão. Kayo Henrique Azevedo, irmão dele, foi apontado como responsável técnico pelo “Jovem Empreendedor” após o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) pedir documentos adicionais sobre a proposta.
Paula de Oliveira Lima, que trabalhou no gabinete entre fevereiro e abril de 2024, abriu a Agência Loop dois dias depois de deixar o cargo. A empresa apresentou ao ICB uma proposta de R$ 311 mil para o projeto.
Na campanha de 2022, Frias recebeu R$ 70 mil de Luiza Tessari Rocha Dias, casada com Heric Dias, sócio-administrador da NTT. Rudyge Boldrini doou R$ 4 mil e recebeu R$ 7.500 por serviços prestados entre agosto e outubro de 2022. Ele foi contratado pelo ICB para o “Lutando pela Vida”, cuja execução não foi integralmente comprovada, segundo a CGU (Controladoria-Geral da União).
Transferências para “Dark Horse”
Frias enviou R$ 645 mil à Go Up, produtora de “Dark Horse”. A PF considerou o valor incompatível com o salário do deputado, de R$ 44 mil. A produtora também recebeu R$ 750 mil da NTT.
A Go Up recebeu ainda R$ 2.614.000, entre 10 de novembro de 2025 e 30 de dezembro de 2025, da Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, a GO 7, ligada a Karina Gama. A GO 7 recebeu R$1 milhão do ICB entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 e R$54 mil em gastos de campanha de Frias em 2022.
Karina nega ilícitos e afirma que “investigação não é acusação, muito menos condenação”. Frias nega irregularidades e disse que a busca e apreensão realizada no dia 10 de setembro foi “cortina de fumaça” em meio às eleições de 2026.



