WASHINGTON — O governo de Trump tentou incluir, nas negociações sobre a tarifa de 50% aplicada ao Brasil, uma exigência para que o país não prendesse nem restringisse a participação eleitoral de pessoas classificadas pelos Estados Unidos como “dissidentes políticos”. A proposta foi apresentada em outubro de 2025, um mês após a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
O conteúdo estava em um documento com 21 pontos encaminhado por representantes norte-americanos à delegação brasileira que foi a Washington para tratar do tarifaço. A minuta previa que o Brasil se comprometesse a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não detivesse, prendesse ou limitasse arbitrariamente a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral.
O nome de Jair Bolsonaro não aparecia no documento. Diplomatas brasileiros, porém, relacionaram a redação ao julgamento do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), concluído um mês antes.
Vieira rejeitou a proposta
A lista chegou por e-mail a pelo menos dois integrantes da delegação que acompanhava o chanceler Mauro Vieira. O grupo avaliou os termos na residência oficial da Embaixada do Brasil em Washington antes dos encontros com representantes do governo norte-americano.
Vieira classificou o documento como “inaceitável” e determinou que ele não fosse incluído na pauta oficial. O chanceler também afirmou que a minuta “não era base para nada”. A orientação foi seguida.
Depois, Vieira conversou individualmente com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e participou de uma reunião ampliada com Jamieson Greer, representante comercial norte-americano, além de funcionários do Departamento de Estado e da Casa Branca.
As reuniões ocorreram antes do primeiro encontro de trabalho entre Lula e Trump, marcado para dez dias depois, em Kuala Lumpur, na Malásia.
Pontos políticos
Quatro dos 21 itens apresentados por Washington tratavam de questões político-institucionais brasileiras. Além da participação eleitoral dos chamados dissidentes políticos, a minuta buscava impedir multas extraterritoriais, congelamento de ativos e punições a cidadãos americanos, residentes legais ou empresas dos Estados Unidos por condutas protegidas pela Primeira Emenda da Constituição norte-americana.
O documento também previa garantias para plataformas digitais dos Estados Unidos, com aviso prévio e possibilidade de contestação ou recurso diante de penalidades ligadas ao conteúdo publicado nas redes sociais. Outro ponto estabelecia que o Brasil não deveria penalizar instituições financeiras brasileiras pelo cumprimento das sanções financeiras dos Estados Unidos.
Em julho, ao anunciar o tarifaço, Trump havia associado publicamente a cobrança à situação de Bolsonaro e defendido a interrupção do processo contra o ex-presidente.



