Um memorando estratégico atribuído a André Marinho apresenta diretrizes para uma parceria entre Brasil e Estados Unidos na exploração de minerais críticos e terras raras durante um eventual governo de Flávio Bolsonaro. O arquivo, produzido em inglês, tem 22 páginas e exibe na capa a identificação “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”.
A autoria aparece nos metadados do documento e foi confirmada por Marinho. Ele afirmou, porém, que o estudo foi uma iniciativa pessoal, não tinha relação com a campanha de Flávio e não foi apresentado a autoridades americanas. A campanha do senador não respondeu se encomendou o material, se concorda com as propostas ou se recebeu recursos de empresas ligadas à Rockbridge.
Plano para minerais críticos
Elaborado em 19 de março deste ano, o documento descreve o chamado “Prosperity Partnership” e defende que o Brasil se torne fornecedor e centro de processamento de minerais críticos alinhado aos Estados Unidos. Entre os objetivos listados estão industrialização, geração de empregos e autonomia estratégica.
O plano afirma que o país não deveria permanecer como exportador de matéria-prima nem depender de cadeias de processamento chinesas. Também propõe alinhamento com os Estados Unidos para construir um sistema alternativo de abastecimento.
O documento classifica o governo Lula como “pró-China” e critica o que chama de avanço regulatório lento, industrialização incerta e atração reativa de capital. Entre os riscos apontados para a continuidade do atual presidente estão a perda de oportunidades industriais e de espaço no realinhamento das cadeias de suprimentos americanas.
Para um eventual governo de Flávio Bolsonaro, o texto lista alinhamento ocidental, aceleração regulatória, política industrial integrada à mineração e atração de capital. A apresentação resume a diferença entre os dois projetos com a frase: “A diferença é simples: Lula hesita, Bolsonaro executa”.
Investimentos e empregos
A proposta prevê seis frentes: mudanças na legislação minerária e no licenciamento; demanda pelos minérios brasileiros apoiada pelos Estados Unidos; processamento doméstico; combinação de capital americano e ativos brasileiros; entrada do Brasil em um bloco de suprimentos alinhado aos EUA; e tratamento dos minerais como ativos de segurança nacional.
Para um horizonte de dez anos, o documento estima investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em mineração, refino e processamento. Também projeta a criação de 500 mil a 1 milhão de empregos e um aumento de 1,5 a 2,5 pontos percentuais no PIB.
A apresentação afirma que o Brasil poderia se tornar um dos três principais fornecedores globais fora da China e o principal polo de processamento do Hemisfério Ocidental. Para os Estados Unidos, cita a redução da dependência chinesa e o abastecimento de setores como inteligência artificial, defesa, transição energética e mobilidade elétrica.
Relações com o trumpismo
A elaboração do documento ocorreu cerca de duas semanas antes de Marinho viajar aos Estados Unidos para se reunir com J.D. Vance. Em 28 de março, Flávio afirmou, durante a CPAC em Dallas, no Texas, que o Brasil seria a solução americana para reduzir a dependência da China em minerais críticos.
Em 26 de maio, Flávio se reuniu com Donald Trump em Washington. No dia seguinte, esteve com Vance e Marco Rubio. Segundo o senador, as conversas trataram de tarifas, terras raras e facções criminosas brasileiras.
Marinho também admitiu ter analisado com a Rockbridge a instalação de uma célula do grupo no Brasil. Ele teria conectado à rede o empresário Pedro Sang, citado por Renan Santos nas acusações de supostos repasses à campanha de Flávio. Não foram apresentadas provas sobre o financiamento, e a legislação eleitoral proíbe doações diretas ou indiretas de entidades ou governos estrangeiros a partidos e candidatos.
Marinho negou ter tratado de recursos estrangeiros e disse: “Não enviei nem apresentei esse conteúdo a nenhuma autoridade americana”. A campanha de Flávio não respondeu aos questionamentos enviados em 12 de junho.



