A resistência do eleitor à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva está mais ligada à imagem pessoal do presidente do que ao desempenho da economia, segundo Hilton Fernandes, cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Para Fernandes, a campanha petista erra ao concentrar sua estratégia na economia. Ele afirma que o tema é relevante, mas que a avaliação eleitoral também é formada por problemas pessoais, acesso à informação, segurança, proteção social e pela rejeição ao governo.
O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O país ficou em 5º lugar no ranking mundial e aparece na 10ª posição entre as maiores economias, com PIB nominal estimado em US$ 2,64 trilhões nas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para este ano.
Fernandes afirma, porém, que o eleitor considera principalmente quanto resta do salário no fim do mês. O aumento de gastos, a alta dos preços de produtos da cesta básica e a redução do poder de compra contribuem para a percepção de que a renda não é suficiente. Segundo ele, essa é a explicação mais concreta para o descontentamento econômico.
Percepção e avaliação do governo
Outra parte da insatisfação, na avaliação do professor, é alimentada pelo discurso da oposição nas redes sociais, que apresenta a situação econômica como pior do que os dados indicam. A percepção da inflação teria mais influência sobre a decisão do eleitor do que os números oficiais, com a internet e serviços de mensagem como o WhatsApp ampliando o alcance dessas informações.
O IPCA acumulou inflação de 17,9% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. A alta foi a menor em um mandato presidencial até as vésperas de uma eleição desde a implementação do Plano Real, em julho de 1994.
Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira (17/09), 53,6% dos entrevistados desaprovaram o desempenho de Lula, enquanto 45,4% aprovaram sua atuação. Na avaliação da gestão federal, 51,5% consideraram o governo ruim ou péssimo, e 40,9% o classificaram como ótimo ou bom. A avaliação favorável cresceu três pontos percentuais desde o início do mês.
Fernandes avalia que o cenário eleitoral é mais afetado pela imagem pessoal de Lula do que pelos indicadores econômicos. Nas pesquisas qualitativas, consideradas por ele mais estratégicas, aparece o desgaste pessoal do presidente. A polarização com o senador Flávio Bolsonaro refletiria um eleitorado cansado, guiado pelo pragmatismo e pela rejeição, além da influência das redes sociais e do noticiário do momento.
Para o professor, o desafio do governo não é apenas comunicar os resultados econômicos. Ele identifica uma baixa credibilidade, na qual a realidade perde espaço para a narrativa. Como exemplo, cita a desconfiança sobre dados do IBGE, como a taxa de desemprego, e a avaliação de que investimentos federais foram ineficazes ou apenas cumpriram uma obrigação.



