RIO DE JANEIRO — A trajetória política de Douglas Ruas é marcada por questionamentos sobre a atuação de sua família em São Gonçalo, contratos públicos, empresas ligadas ao candidato e investigações do Ministério Público. Ruas é candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro.
O pai, Capitão Nelson, é prefeito de São Gonçalo, enquanto o irmão, Nelson Ruas Filho, é vereador no município. Douglas também ocupou uma secretaria na administração do pai antes de chegar à Assembleia Legislativa e ao governo estadual.
Histórico familiar e atuação política
Capitão Nelson foi citado na CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio, em 2008, com base em informações do Disque-Denúncia que o relacionavam a um grupo paramilitar. O inquérito foi arquivado. Em 2024, ele apresentou à Justiça Eleitoral uma certidão informando que não respondia a processo relacionado ao caso.
Durante a carreira na Polícia Militar, Nelson recebeu mais de uma vez a chamada “gratificação faroeste”, criada em 1995, e integrou uma patrulha conhecida como “carruagem do além”. Esses episódios dizem respeito ao histórico do pai e não permitem afirmar que Douglas tenha pertencido ou pertença a uma milícia.
Na prefeitura, Douglas comandou a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais, responsável por convênios para o recebimento de recursos estaduais e federais. Desde 2020, São Gonçalo recebeu R$ 250,5 milhões provenientes do chamado orçamento secreto. Para pavimentação, foram destinados R$ 17,2 milhões por indicação do deputado federal Altineu Côrtes, de quem Douglas já havia sido assessor.
Doação e contrato municipal
Na campanha de 2022 para a Assembleia Legislativa, o empresário Carlos Freitas Neves doou R$ 160 mil a Douglas e foi o segundo maior financiador individual da candidatura. Três anos depois, uma empresa controlada por Neves assinou contrato de R$ 732 mil com a Prefeitura de São Gonçalo, administrada por Capitão Nelson.
O acordo previa pagamentos mensais de R$ 61 mil pela locação de um imóvel para a Fundação Municipal de Saúde e foi firmado por dispensa de licitação. A empresa havia sido criada dois meses antes. Mariana Barbosa de Souza, mulher de Douglas, tinha sido sócia de Neves em duas empresas. Ele deixou as sociedades em agosto de 2025, antes do contrato.
Douglas disse desconhecer a contratação e afirmou que não ocupava cargo na prefeitura naquele momento. A prefeitura declarou que a locação seguiu os procedimentos legais.
Investigações e patrimônio
Em junho de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu apuração preliminar sobre a Saur Construção, Terraplanagem e Locação, empresa da qual Douglas e o irmão são sócios, e a DM Invest, sociedade que envolve Douglas e Letícia Felício. O órgão pediu informações sobre eventuais pagamentos do governo do Rio. A Procuradoria-Geral do Estado informou que não foram encontrados pagamentos às duas empresas.
Também há um inquérito civil aberto em maio de 2023 para apurar possíveis atos de improbidade administrativa e enriquecimento ilícito envolvendo Douglas e Thiago Saraiva. Até agosto deste ano, o procedimento não havia sido concluído.
Entre 2023 e 2025, empresas ligadas a Douglas e à mulher dele compraram imóveis e precatórios avaliados em mais de R$ 15 milhões nas escrituras. A Saur declarou R$ 19,6 milhões em lucros acumulados e previu a distribuição dos valores aos sócios até 2028. Douglas teria direito a aproximadamente R$ 15,9 milhões.
Uma auditoria sobre contratos da Secretaria estadual de Cidades, comandada por Douglas entre 2023 e março de 2026, apontou possíveis irregularidades. Um dos casos envolve aditivo de aproximadamente 45% em um contrato de recapeamento, que teria passado de R$$ 99,7 milhões para $$ 144,9 milhões.
O relatório também citou relações empresariais envolvendo pessoas próximas a Altineu Côrtes. Como o deputado possui foro, o caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República. Douglas e os demais citados negaram irregularidades.
Os procedimentos ainda não concluídos não comprovam, por si só, crime cometido por Douglas. O conjunto dos casos, porém, colocou sob análise a concentração de influência política em São Gonçalo, as relações empresariais e o uso de recursos públicos na trajetória do candidato.




