SÃO PAULO — Candidato do bolsonarismo ao Senado por São Paulo, Guilherme Derrite (PP) tenta associar sua campanha à defesa do endurecimento penal e ao combate ao crime organizado. Como relator do Projeto de Lei Antifacção na Câmara, porém, apresentou alterações criticadas pela Polícia Federal, pela Receita Federal, pelo Ministério da Justiça e por especialistas.
Em uma das versões do relatório, Derrite condicionou a atuação da Polícia Federal nos Estados a uma solicitação dos governadores. A corporação afirmou que a mudança poderia enfraquecer seu papel institucional no combate ao crime. O professor de Direito da PUC-RS e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rodrigo Azevedo disse que a proposta dificultaria a integração entre União, Estados e municípios.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que atua no combate ao PCC e participou da elaboração do projeto, afirmou que o substitutivo poderia neutralizar a experiência dos Gaecos. Após a reação negativa, Derrite retirou a exigência de autorização dos governadores, mas outras mudanças continuaram sob crítica.
Recursos e bens apreendidos
Outra versão do relatório retirava da Polícia Federal recursos obtidos com bens apreendidos de organizações criminosas e direcionava as receitas a fundos estaduais e distritais. Para Marivaldo Pereira, secretário nacional de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, a medida enfraquecia o financiamento da corporação e comprometia ações de inteligência, reaparelhamento, capacitação e investigações de longo prazo.
O relatório também condicionava o perdimento de bens apreendidos ao trânsito em julgado da sentença. Auditores da Receita Federal afirmaram que a exigência poderia atrasar a descapitalização das facções. O Sindicato dos Auditores-Fiscais da Receita Federal avaliou que a mudança estimularia a sonegação, o contrabando e o descaminho.
No Senado, o texto sofreu novas alterações. A versão final ampliou mecanismos de bloqueio de bens e previu recursos para fundos federais e estaduais de segurança, recuperando pontos da proposta original do governo e afastando parte das mudanças feitas na Câmara.
Segurança em São Paulo
A propaganda de Derrite também atribui a ele recordes na redução de crimes, o fim da Cracolândia e uma atuação de proteção às mulheres. Os dados citados no texto, contudo, registram 270 vítimas de feminicídio em 2025 no Estado de São Paulo, alta de 38,5% em relação a 2022. No primeiro semestre de 2026, foram 141 ocorrências e 142 vítimas, considerando um caso com duas mulheres assassinadas.
A proposta para a Secretaria de Políticas para a Mulher em 2026 foi de R$ 16,5 milhões, contra R$ 36,2 milhões previstos inicialmente para 2025, uma redução de 54,4%.
Sobre a Cracolândia, o relato é de dispersão dos usuários por diferentes pontos do centro, e não de desaparecimento do consumo de crack nas ruas. A campanha de Derrite também apresenta a tornozeleira eletrônica para agressores como “100% eficaz”.


